segunda-feira, 23 de abril de 2018

De "President" 總統酒店 a "Central" 新中央

“O monumental edifício do «President Hotel», o maior estabelecimento hoteleiro de Macau e um dos melhores do sul da China, foi recentemente inaugurado pelo governador daquela colónia sr. Tamagnini Barbosa, perante uma numerosa assistência. Este edifício que veio a custar meio milhão de patacas, tem 80 quartos para hóspedes, dez salas de jantar, um roofgarden* e um esplêndido salão cinematográfico. Esta arrojada iniciativa pertence ao activo capitalista de Macau sr. Hee Cheong (...).”

酒店座落於新馬路,原名為總統酒店,1928年啟用至今。

Hotel Central (Chinese: 新中央酒店) is an 11-storey-tall hotel on Avenida de Almeida Ribeiro. Historically it has also been known as President Hotel (Chinese:總統酒店). The building was initially 6-storey tall by the time of its construction in 1928, even then upon completion it was the tallest building in Macau. The extra floors were added in 1942. There were formerly casinos in the fifth and seventh floors of the building. It is also the first building in Macau with elevators.

E assim começa a história do hotel "President" - 總統酒店, inaugurado a 22 de Julho 1928 (domingo). Ano em que também abre ao público o "Riviera" (ex- New Macao Hotel)...
Já no início da década de 1930 muda de donos e de nome, passa a denominar-se "Grand Hotel Central" com o seu conhecido casino "Club Hou Heng... de Kou Ho Neng e Fu Tak Iam, vencedores da concessão do jogo em Macau. 
A 18 de Maio de 1937 o hotel é re-inaugurado e passa a denominar-se hotel "Central" - 新中央 . Antes, em Abril, o governo atribuira o exclusivo do fantan a Hoi Tai Seng e Chan Seng. Esta nova empresa, a Tai Hing, irá arrendar o hotel. Faz obras de remodelação e instala um novo cabaret no 6º piso, o Cabaret Grand Central.

Em 1941, em plena guerra sino-japonesa, é inaugurado o Grand Hotel Kuok Chai. Na resposta os arrendatários do "Central", um ano depois, em 1942, quando a segunda guerra mundial chega ao Pacífico e à Ásia, após obras de remodelação, acrescentam novos andares ao edifícios que passa dos seis pisos iniciais para 11. Mais 3 do que o Kuok Chai.

O "Central" foi durante muitos anos o edifício mais alto de Macau e "de todo o território ultramarino português", sendo também o primeiro edifício a dispor de elevadores. Funcionou em pleno até ao início da década de 1960. Quando a STDM ganhou o exclusivo do jogo, os casinos do "Central" tiveram de fechar e passou a ser apenas hotel. Ainda existe...


* o roof garden era nada mais nada menos que um terraço - com bar e espaço para actuação de grupos de música ao vivo-  com uma vista privilegiada sobre Macau... 
'Competia' com a sala de cinema enquanto duas grandes atracções da nova unidade hoteleira.

domingo, 22 de abril de 2018

A toponímia em redor das ruínas de S. Paulo

Na toponímia de Macau (e ilhas) os nomes ligados à igreja católica ocupam um lugar de relevo. Uma das zonas onde estes topónimos existem em maior concentração fica em redor do outrora complexo de S. Paulo que integrava a igreja Mater Dei, o colégio, e as hortas e pomar.
Vejam-se alguns exemplos: Largo da Companhia de Jesus, Rua de S. Paulo, Calçada de S. Paulo, Travessa de S. Paulo, Rua da Ressureição, Calçada de S. Francisco Xavier, Travessa da Paixão, Rua D. Belchior Carneiro, Largo da Companhia, Rua de Tomás Vieira, Rua de Santo António, etc...

sábado, 21 de abril de 2018

O fascínio do Templo de A-Ma

Dos mapas mais antigos às fotografias digitais, dos desenhos às pinturas, das gravuras, aguarelas e pinturas a óleo, o templo de A-Ma é desde sempre um dos motivos eleitos quer por anónimos quer pelos artistas conhecidos.
Uma das primeiras referências bibliográficas remonta ao século XVI quando o missionário Matteo Ricci (1552-1610) visitou Macau em 1582 e descreveu o templo em "A China no Seculo XVI: Os Diários de Matteo Ricci".

Depois dele e ao longo de vários séculos, foram muitos os pintores que se renderam ao fascínio do local. Veja-se este desenho da autoria de Chrétien-Louis-Joseph de Guignes (1759-1845), publicado no livro “Voyages a Peking, Manille et l’Île de France faits dans l’intervalle des années 1784 à 1801”. 

Borget
E ainda os trabalhos do britânico George Chinnery (imagem abaixo), do pintor francês Auguste Borget (imagem acima), do médico britânico Thomas Watson e do macaense Marciano Baptista.
G. Chinnery

Thomas Watson
Jules Itier não esqueceu o espaço nos primeiros registos fotográficos do território em 1844 e já em meados do século XX merecem destaque os registos a preto e branco do português José Neves Catela.


Borget
Born into a well-to-do family in Issoudun, Auguste Borget forsook a career in banking to study art. He attended the atelier of Jean-Antoine Gudin in Paris, and became a close friend of Honoré de Balzac, with whom he shared na apartment. In October 1836 Borget embarked on a tour westwards around the world, sketching as he went; in the course of this journey he spent over ten months on the China coast in 1838-9. His Chinese scenes were
published as lithographs with accompanying text in La Chine etles Chinois (1842).
Watson
The Scottish-born Thomas Boswall Watson came to Macau as a physician in 1846; he moved on to Hong Kong in 1856, and returned to Britain in 1859. In Macau he became the friend, doctor and pupil of George Chinnery during the artist’s last years. He was himself a capable amateur artist, and some (although by no means all) of his drawings are evidently inspired by Chinnery’s work. Watson acquired a number of drawings by Chinnery, some of which - it has been speculated - were given to him in lieu of medical fees.
Chinnery
English painter, active for almost all his career in the Eastern world. After leaving London in 1802 he worked in India until 1825 and then for the rest of his life in Macao, from which he made visits to Canton and Hong Kong. He made his living principally as a portraitist, but his reputation now rests mainly on the pictures of Indian and Oriental life and scenery that he made for his own pleasure.
Templo de T'in Hau - ilustração século XIX - autor desconhecido

sexta-feira, 20 de abril de 2018

Aomen Shi quan tu / City plan of Macau / Mapa da cidade de Macau

Aomen Shi quan tu / City plan of Macau / Mapa da Cidade de Macau
Reproduzido no "Anuário Comercial e Industrial 1952/53 / From "Commercial and Industrial Yearbook" 1952/53.

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Aforamentos...

"(...) À chegada a Macau, seguindo o conselho do chefe de repartição do Ministério do Ultramar, MSM fica hospedado no hotel Hing Kee, na Praia Grande, perto do Palácio do Governo. Mais tarde muda-se para uma casa na rua do Padre António (freguesia de S. Lourenço).
Em Outubro de 1903 assina um contrato de aforamento com o governo de Macau (3 avos/m2) de um terreno com 600 m2 sito na encosta da “montanha e matta da Guia”. No ano seguinte inicia a construção de uma mansão naquele local, na encosta da Colina da Guia, sobranceira ao cemitério dos Parses. Fica no cruzamento da Rampa da Guia (actual Estrada do Engenheiro Trigo com a Estrada de Cacilhas, Estrada dos Parses e Calçada da Vitória). Na época os regulamentos não exigiam a elaboração de uma planta para as habitações construídas fora dos limites da cidade, mas Silva Mendes, meticuloso, manda fazer o projecto talvez porque a construção foi feita em regime de empreitada. MSM acompanhava o andamento das obras e quando não gostava do resultado final mandava fazer de novo.
A obra fica pronta por volta de 1906/7. Na edição de 14 de Dezembro de 1908 da revista “Illustração Portugueza” (nº 147) surge uma fotografia da Casa Silva Mendes com a legenda “Pharol da Guia e Casa Silva Mendes”. Só em 1913 foram construídos os muros que delimitavam o terreno com um total de perto de 2000 m2. A propriedade tinha um poço e, alguns anos mais tarde, passa a ter uma cisterna. Para isso MSM faz um aforamento de um terreno com 300 m2 em Outubro de 1914. A fachada principal dava para a Estrada de Cacilhas mas a entrada para a casa fazia-se pela Rampa da Guia. Num registo de aforamentos da época surge a designação Vila Silva Mendes. (...)"

in Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931, João Botas, autor/ICM, 2017



quarta-feira, 18 de abril de 2018

Relatórios sobre a Gruta de Camões no final do século 19

Relatório do Director das Obras Públicas da Província de Macau e Timor José Maria de Sousa Horta e Costa relativo ao ano de 1885 e datado de 1 de Julho de 1886.
“No jardim da gruta de Camões, fizeram-se trabalhos mais importantes. Levantou-se um grande muro, que abatera com as chuvas em que se despenderam $430,00. Abriram-se novas ruas, construiu-se um pequeno jardim com canteiros limitados por pedras britadas e de cores differentes, compraram-se em Cantão muitas plantas para o adornar, bettonaram-se muitas ruas, empregando uma dosagem tal, que resistisse ás chuvas, como de facto tem succedido, construiu-se um viveiro com canteiros limitados de tijolo vermelho, levantou-se provisoriamente um kiosque de bambú e óla para a banda de musica, mandaram-se fazer 20 bancos de madeira, que custaram $120,00, picaram-se todos os degráos de cantaria ali existentes, e fizeram-se outros trabalhos para adorno e embellezamento.
Este sítio, ultimamente adquirido pelo governo, não só pela tradição historica, que lhe está ligada, mas por ser um dos pontos mais bellos e pittorescos de Macau, merece que se lhe preste uma grande attenção, e não hesito em confessar, que esta direcção não tem tempo nem pessoal para cuidar devidamente. É n’este sitio, que se ergue a gruta, onde, si vera est fama, o nosso eminente epico, Luiz de Camões, compôz parte do seu magnifico poema, conhecido hoje em todo o mundo civilizado, e traduzido em quasi todas as linguas.
Esta gruta formosissima achava-se precedida por um portico de alvenaria, e tapada com uma grade de madeira, que a desfeiavam bastante, e sobre ella levantava-se um kiosque de pouco gosto e em máo estado. Tudo isto foi arrancado, conservando-se apenas a obra da natureza, devendo mais tarde este local ser devidamente adornado.
O que ha a fazer aqui? Muito, mas a verba distribuida é tão pequena, que pouco sobrará depois de pagar as despezas ordinarias. E é pena isto. Ha aqui local proprio para se construir um lago, cujas aguas, subindo por meio de bombas, de poços existentes ali, desçam depois formando repuxo. Tem espaço para reter alguns animaes mais raros, e tornar-se assim de curiosidade zoológica, e o viveiro, já mencionado, e magnificamente disposto para ali se dislfibuirem, por classes e familias, differentes plantas, podendo fazer-se assim um attencioso estudo da flora da colonia, o que com certeza é util e instructivo.
Apezar porém de tudo isto, da falta de meios, de tempo e de pessoal, eu jamais descurarei este local, que a cidade de Macau tanto deve appreciar, e que por tantos motivos lhe deve ser caro”.

José Maria de Sousa Horta e Costa que esteve em Macau como Director das Obras Públicas em 1886 (na altura tenente de Engenharia); seria governador de Macau entre 1894 e 1896.

Relatório do Serviço Médico da Província de Macau e Timor referido ao ano de 1985 elaborado pelo Dr. Augusto Pereira Tovar de Lemos e datado de 1 de Fevereiro de 1886.
“1885 - Bairro de S. António: “Do lado N fica a casa ou palacete e uma formosissima quinta; cujo dono ha pouco era o sr. Comendador Lourenço Marques, e que actualmente pertence ao estado. N’esta quinta está a gruta histórica de Camões. Foi esta importantissima e formosa propriedade comprada ha pouco pelo Ex. mo Sr. Governador Thomaz Roza, logo que soube que o proprietario a negociava com os missionarios francezes. Por 35:000 patacas se satisfez um dever patriotico, por todos sentido e já pela illustrada sociedade de Geographia lembrado, por ocasião da celebração do tricentenario do Camões.*
Descrever a belleza d’aquella quinta, fallar d’aquellas gigantescas arvores, cujas, raizes abraçando caprichosamente as rochas, encantam e extasiam o observador, não é para aqui, nem eu, por incompetente, assumiria tal encargo. Muitas aplicações pode ter tal vivenda, supponho porem que a melhor entre todas, e a que está lembrando aos que a conhecem, é para museu, jardim zoologico e botanico. Em melhores condições naturaes não está decerto o bello e novo museu em Singapura. A idea não é minha, mas seguramente applicação melhor e mais conveniente não pode ter. Corre que ha muito em tão importante e instructivo melhoramento pensa o Ex.mo Sr. Thomaz de Souza Roza. Se conseguir realisal-o, é mais uma obra grandiosa do seu governo.
Em linha com a entrada de tão formosa e encantadora vivenda estão extensas ruínas, esqueletos de dois palacetes, triste recordação do anno de 1874. Pertencem ao mesmo sr. Commendador Lourenço Marques. Diz-se que o seu proprietario tenta de novo erguei-os para arrendar, pois que para si destina parte do grande palacio, que formando do lado SO a face do quadrado do espaçoso largo, foi agora erguido sobre as ruínas d’ um outro palacete que o mesmo tufão em intima alliança com um voraz incendio, conseguira abater. Igual sorte ia tendo a igreja de Santo Antonio que fica ao S. Em geral os edificios d’esta freguezia são de modesta apparencia.”
Augusto Pereira Tovar de Lemos ( ? - 1933), chefe de serviço honorário da província de Moçambique, chegou a Macau no transporte «África», a 1 de Janeiro de 1882, acompanhando como médico, o 1.º Batalhão do Regimento de Infantaria do Ultramar. Em Maio de 1884 foi nomeado cumulativamente ao serviço do 3.º Batalhão e Chefe interino do Serviço de Macau e Timor. Foi depois chefe interino algumas vezes (1885, 1887 e 1888), substituindo o Dr. Gomes da Silva, ausente por licença graciosa e/ou em missão de serviço a Timor e Sião. Regressou a Portugal em Outubro de 1889 para tratamentos e não mais regressou tendo morrido em Janeiro de 1933.
*A ideia de adquirir o Jardim Luís de Camões foi do antigo Capitão do Porto de Macau, João Eduardo Scarnichia, enquanto deputado em Lisboa, em 1880; o interesse de padres franceses em ali instalar um sanatório levou o governador Tomás de Souza Roza (1883-86) a decidir comprar a propriedade à família Marques.

terça-feira, 17 de abril de 2018

O número 1 da Rua Silva Mendes


Em Macau existe a chamada Casa Memorial de Sun Iat Sen. Ao contrário do que muitos pensam, não foi nunca a sua residência. Foi mandada fazer em 1912/1913, pela sua mulher, Lu Muzhen e pelo filho, Sun Fó /孫科, no nº 1 da Rua de Silva Mendes, junto à Av. Sidónio Pais, na zona da Flora.
Sun Iat Sen é o 4º em último plano a contar da direita
O edifício destruído em Agosto de 1931 pela explosão do paiol da Flora

Em Agosto de 1931 ficou praticamente toda destruída na sequência da explosão do Paiol da Flora sendo reconstruída em 1933. Em 1958 tornou-se Casa Memorial e foi aberta ao público como se mantém até hoje. De seguida, reproduz-se um texto da autoria de Luís Gonzaga Gomes, escrito em 1953, sobre aspectos da vida de Sun Iat Sen.
"O vulto mais proeminente da história contemporânea da China é, sem dúvida, Sun-Iât-Sin, que os chineses deificaram, cognominando-o de “Kuók-Fu”, isto é, “pai da nação”, não só por ter ele sido um dos principais fautores da República Chinesa, como ainda pelo facto de ter sacrificado, com modelar abnegação, toda a sua vida, em proveito da grande reforma social, que visava transformar o seu país numa nação próspera o europeizadamente civilizada.
Natural de Tch’ói-Hâng, insignificante vilório que dista apenas uns poucos de quilómetros de Macau, era petiz de treze anos quando partiu para Honolulu, a fim de se juntar a um irmão mais velho que prosperava nessa longínqua “Pérola do Pacífico”.
Após cinco anos de estudos elementares, regressou à terra natal, para seguir pouco depois para Hongkong, onde fez os preparatórios no “Queen’s College” e, em 1892, formou-se brilhantemente no “Medicai College” dessa mesma cidade.
Os ininterruptos vexames impostos pelo estrangeiro à sua pátria, despertaram pouco a pouco, lentamente, no seu ser o espírito de revolta, e não lhe foi difícil ver que o motivo primacial porque o seu país se encontrava debilitado e incapaz de reagir à então desenfreada cupidez dos estranhos, residia na completa inépcia do caquético e anacrónico regime monárquico, totalmente arruinado e enfraquecido pela corrosiva venalidade e pela estulta incompetência de imbecilizados eunucos que eram os que nesse tempo retinham de facto, nas suas mãos, os destinos da nação chinesa.
O malogrado Kuóng-Sôi, jovem e inexperiente monarca, quando subiu ao trono, em 1875, tentara reformar o país. Mal avisado, porém, pelo aliás bem intencionado Hóng-lâu-Uâi, ousou prematuramenta derruir, no curto espaço de cem dias, costumes e leis milenariamente consuetudinários mas, traído vilmente pelo seu lugar-tenente, Un-Sâi-Hói (Yuan-Shih-Kai) - o maior funâmbulo da política chinesa que, vindo depois a ser Presidente da República, tentou restabelecer a Monarquia, proclamando-se seu imperador,— foi por este entregue à valetudinária e cruel imperatriz reinante que, ao saber que uma das intenções do incauto Kuóng-Sôi era afastá-la definitivamente do trono, não hesitou em repetir um desses actos de tragédia medieval, fazendo sequestrar o malaventurado imperador, durante quarenta longos anos, entre as quatro paredes desprovidas de janelas dum dos pavilhões da Cidade Interdita.
Gorara assim um infortunado tentame cujo desígnio almejava uma drástica reforma do complicado sistema político chinês - a introdução do sistema democrático, no seu aspecto mais liberal possível, em substituição dum absolutismo intransigente e imutavelmente conservador.
Desfeita a ténue esperança que os espíritos liberais - os verdadeiros patriotas daquela época - mal vislumbraram, não existia outro meio de salvar a nação, que estava caminhando a passos largos para o vórtice, senão escorraçar do mando os odiados eunucos, conselheiros da déspota imperatriz-mãe, e segregar do mando os incompetentes e malversadores mandarins, os sátrapas do sistema monárquico chinês.
Não era fácil lutar contra os interesses dum sistema político que séculos de experiências constituíra em uma admirável organização; contra uma escola mental, formada por retrógrados letrados que, por se encontrarem obcecados com os obsoletos conceitos filosóficos dos seus cânones clássicos se julgavam possuidores da sabedoria universal, repudiando por isso qualquer ideia inovadora; contra os mandarins, classe privilegiada que retinham o poder e a riqueza; e, contra milhões de indivíduos mal dispostos a ceder o seu modo do vida que supunham irrefragavelmente o melhor do mundo por outro deles inteiramente desconhecido. Provocar, pois, uma revolução, num meio tão hostil, era tarefa hercúlea que demandava longos anos de proselitismo para se poder obter algumas probabilidade de êxito.
Estava, porém, lançada a sorte, e Sun-lât-Sin não trepidaria ante nenhuma dificuldade. Impulsivo, dominando facilmente quem o ouvia com a magia das suas palavras, principiou a sua campanha de aliciação, organizando uma sociedade secreta que tentou um ataque contra o “Yamen” de Cantão, em 1895. Fracassada a tentativa e acossado pela polícia manchú, o visionário patriota foi obrigado a exilar-se. Fugiu para Hauai, para Londres, para terras diversas, sempre perseguido. Na sua vagabundagem, de cidade em cidade, o seu lúcido espírito não descansava, ia observando, estudando e absorvendo novas idéias que ficariam mais tarde consubstanciadas no “Sám-Mân-Tchü-I” (os Três Princípios do Povo). Em todos os lugares ondo encontrava um núcleo de compatriotas não lhe faltava o apoio moral e financeiro dos mesmos.
Durante esse agitadíssimo período da sua vida, Sun-Iât-‘Sin   teve de albergar-se  várias vezes em Macau, e, numa ocasião estabeleceu a sua residência e consultório na Rua das Estalagens, no prédio onde hoje se encontra instalada a firma de sedas “U-Tip-P’ât-Tâu”, porventura o primeiro onde a clínica europeia foi exercida por um cidadão chinês. Sun-Iât-Sin, necessitava de se dedicar à, sua profissão de médico, não só para ocultar a sua verdadeira actividade, como para obter recursos, a fim de poder manter-se, tanto a si como aos seus correligionários mais necessitados.
Esse consultório em breve se transformou em refúgio dos mais importantes monarcómanos, tais como: lèong-Hók-Leng, lâu-Lit, Uóng-Hák-Kéong, o mais ardente de todos, lu-Tchéong-Pou e outros. Pela calada da noite, os conjurados efectuavam o seu corrilho no consultório e aí recebiam as instruções do chefe, e, numa mesma cama, dormiam os lugares-tenentes de Sun-Iât-Sin, quando após horas de truculenta discussão a fadiga os obrigava a descansar.
Como médico, Sun-Iât-Sin era extremamente habilidoso. Entre a sua numerosa clientela, figurava um nevrópata, filho do ricaço Lou, que, minado pela atroz doença que o lançava em constantes ataques de melancolia, depois de ter recorrido sem sucesso algum à ciência dos mais famosos curandeiros da época, só alcançou ser curado por Sun-Iât-Sin.
Grato   por  quem   conseguira   restituir a serenidade ao espírito atribulado do seu estremecido filho, Lou-Si   ofereceu-lhe   um  medaIhão de oiro,   onde  estava  gravado  o eterno testemunho   do   seu  reconhecimento, nos seguintes termos:  “São mútuas a sua habilidade e a sua bondade”. Pouco depois, Sun-Iât-Sin teve de abandonar o seu consultório para ir exercer a sua actividade de revolucionário em outros lugares.
Todos os seu pertences foram então confiados à guarda de Ièong-H’ók-Leng e, quando este morreu, foram entregues aos cuidados da viúva do ricaço Lou-Si. Entre essas relíquias existia um filtro onde lèong-H’ók-Leng pincelara este conceito ditado pela sua admiração ao caudilho: “Ansioso desígnio tão puro como a água”. Com o decorrer dos anos, o filtro passou a ser propriedade de Lèong-Im-Mêng, director que foi da Escola Secundária Sông-Sât de Macau, que o ofereceu ao Museu dos Cinco Andares de Cantão, a fim do mesmo poder ser admirado e reverenciado por todos os cantonenses.


No intuito de perpetuar a memória de Sun-Iât-Sin em Macau, Tch’àn-Tchân-U, aliás Tch’ân-Meng-Sü, quando foi escolhido pelo general Tchèong-Kái-Seak para presidente do Governo Provincial de Kuóng-Tông, com sede em Cantão, pensou em adquirir o edifício onde aqui esteve instalado o consultório de Sun-Iât-Sin, a fim de o transformar em um “Pavilhão de Recordação de Tchông-Sán”. Esta ideia, porém, não chegou a vingar porque Tch’àn-Meng-Sü pouco tempo se demorou no poder, em virtude do golpe de estado, provocado em 28 e 29 de Abril de 1931, pelo seu rival o general Tch’àn-Tchái-T’óng, comandante do  8.° Corpo do Exército Nacional Revolucionário.
Em frente do Quartel de Artilharia, na Rua Silva Mendes, existia uma casa que servira de habitação à mulher de Sun-Iât-Sin e que foi destruída no pavoroso desastre da explosão do paiol da Flora, em 1928. Em seu lugar ergue-se hoje um magnífico edifício (foto acima), em estilo mourisco-modernista, encontrando-se no meio do seu pequeno jardim a estátua de Sun-Iàt-Sin, em bronze e tamanho natural. É nesta casa que o seu filho Sün-Fó, um dos mais importantes vultos da política chinesa, costuma residir, quando de passagem por Macau para a sua aldeia natal."
PS: utilizando o motor de pesquisa do blogue e/ou as "etiquetas" podem ser encontrados inúmeros posts sobre o tema.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

As ilhas num folheto turístico: década 1980

Templos, praias, pousadas, estradas, fábrica de panchões, as vilas da Taipa e Coloane bem como as estradas são algumas das informações dadas num guia turístico do início da década de 1980 sobre Macau de que apresento aqui apenas a parte relativa às ilhas.
A Ponte Macau-Taipa inaugurada a 5 Outubro 1974 - imagem acima - foi decisiva para o desenvolvimento das ilhas. Antes fora o istmo - zona actualmente denominada por Cotai - a ligar as ilhas da Taipa e Coloane (imagem abaixo).
Imagem da década de 1980 antes dos aterros que transformaram esta zona.
Praia de Hác Sa (tradução: areia preta)
Na Taipa
Coloane

domingo, 15 de abril de 2018

A 'gare marítima' da Ponte-Cais nº 16



1951年4月7日十六號碼頭(Ponte 16) 由澳督柯維納(Albano Rodrigues de Oliveira)剪綵開幕啟用。澳門大資本家傅德蔭在1947年已提出拆卸舊16號碼頭,並出資重新建造新碼頭,政府考慮到其計劃有利澳門經濟發展及其逼切性,予以批准。傅德蔭委托施約翰工程師負責新碼頭設計,由周滋汎負責拆卸舊碼頭,並承建新碼頭。該碼頭位於新馬路與內港交界,是澳門重要的海上門戶。由於十六號碼頭昔日停泊傅氏旗下德記船務公司行走港澳的「大來號」客輪,所以又稱為「大來碼頭」和「德記碼頭」;當時傅德蔭的辦公室也設於十六號碼頭。
A inauguração da Ponte Cais nº 16 ocorreu a 7 de abril de 1951 (ainda que na fachada surge o ano 1948), era governador Albano Rodrigues de Oliveira. O projecto para o novo cais no Porto Interior nasceu em 1947 e foi financiado pelo empresário e magnata do jogo, Fu Tak Iam. Preparava-se para abrir uma empresa de navegação marítima (a Tak Kee Shipping & Trading Co. Ltd que faria as ligações Macau-Hong Kong) com as mais modernas embarcações e precisava de uma doca que correspondesse às exigências de embarcações como o Tai Loy (大來), o 'grande' ferry da época (capacidade para mais de 700 passageiros) e o primeiro com casco de aço a ser construído em hong Kong depois da segunda guerra mudial. A ponte-cais, curiosamente, também viria a ficar conhecida entre os chineses, como o "grande cais".
Na imprensa da época a inauguração da nova gare marítima não passou despercebida:
"No dia 7 de Abril de 1951, inaugurou-se a ampla Ponte-cais n.º 16, sólida construção, em cimento armado, de linhas modernas e singelas, situada mesmo à entrada da Avenida Almeida Ribeiro, a principal artéria da cidade."
 
 O Tai Loy atracado na ponte-cais 16 tendo atrás o Grand Hotel Kuok Chai

sábado, 14 de abril de 2018

Ligações telefónicas de e para a Taipa: 1954

No Boletim Oficial do final de Outubro de 1954 a Repartição Central dos Serviços dos Correios, Telégrafos e Telefones de Macau dava a conhecer as "instruções" para se fazer "qualquer chamada" telefónica de Macau para a Taipa e vice-versa e ainda "entre os telefones da Taipa". Neste último caso "levanta-se o auscultador e quando ouvir a nota cantante e alternada (sinal da estação), faz-se o número desejado".
Largo do Senado na década de 1950 com cabine telefónica
Pedido instalação telefónica: 1976

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Through China with a Camera (1898)

Macao is interesting as the only Portuguese settlement to be found on the coast of China. It may be reached by steamer either from Hongkong or Canton, and it is a favourite summer resort for the residents of our own little colony. In that pretty watering-place we may enjoy the cool sea-breezes, and almost fancy, when promenading the broad Praya Grande, as it sweeps round a bay truly picturesque, that we have been suddenly transported to some ancient continental town. Macao is a magnificent curiosity in its way. The Chinese say it has no right to be there at all ; that it is built on Chinese soil ; whereas the Portuguese, on their part, allege that the site was ceded to the King of Portugal in return for services rendered to the Government of China.
These services, however, cannot have been properly appreciated, for the Chinese in 1573, built a barrier-wall across the isthmus on which the town stands, to shut out the foreigners. The place has had a chequered history since the time of its original foundation, sometimes being under its own legitimate Government, and at others being claimed and ruled by the Chinese. But its history, however important to the parent country, had better be left alone, more especially as there are passages in it which reflect no great lustre on the nation whom Camoens adorned.
The main streets in Macao are deserted. The houses there are painted in a variety of strange colours, some of the windows being fringed with a rim of red, which gives them the look of inflamed eyes in the painted cheeks of the dwellings. But there are magnificent staircases, wide doorways and vast halls, though the inmates for the most part are a very diminutive race; they are called Portuguese, but they suffer by comparison with the more recent arrivals from the parent land, being darker than the Portuguese of Europe, and darker even than the native Chinese. There is trade going on the streets, but it is of a very languid kind, and the gambling-houses, or the cathedral are the chief places of resort. The forts are, of course, garrisoned with troops from Europe.
At 4 p.m. or thereabouts, the settlement wakes up; carriages whirl along the road; sedan chairs struggle shorewards, that their occupants may taste the sea-breeze; and the mid-day solitudes of the Praya Grande have been converted into a fashionable promenade. Ladies are there too, attired in the lightest costumes and the gayest colours; some of them pretty, but the majority sallow-faced and uninteresting, and decked out with ribbons and dresses, whose gaudy tints are so inhar- moniously contrasted, that one wonders how Chinnery the painter could have spent so many of his days among a com- munity so wanting in artistic tastes. The young men - for there seem to be no old men here, at least all dress alike, quite irrespective of years - are a slender race, but not more slender than diminutive.
But if Macao is interesting as a Portuguese settlement, and the only one which now remains to Portugal of those which her early traders founded in China, it can also boast of historic associations, giving it a special and independent Approach to Buddhist Temple, Macao, attraction. Here the poet Camoens found a retreat, and here too, Chinnery produced a multitude of sketches and paintings, which have really had some influence on art in the south of China. (...)
Excerto do Livro Through China with a Camera (1898), John Thomson
John Thomson (1837-1921) fez a sua primeira visita à China entre 1868 e 1872 registando a vida e os costumes locais através da fotografia. Visitou Macau, Hong Kong, Guangzhou, Shantou, Fuzhou, Xiamen, Taiwan, Shanghai, Ningbo, Nanjing, Sichuan, Tianjin, Beijing e Pequim, entre outros locais.

quinta-feira, 12 de abril de 2018

“Ancoradouro da Taipa: Nomes do Passado e do Presente”


A exposição “Ancoradouro da Taipa: Nomes do Passado e do Presente” está patente na Casa de Nostalgia das Casas da Taipa até 18 de Junho (excepto à 2ª feira), entre as 10 e as 19 horas.
A actual zona do COTAI era onde se localizava em tempos o Ancoradouro da Taipa, pelo qual passavam frequentemente muitas embarcações comerciais estrangeiras. Com a apresentação dos topónimos do passado e do presente, a exposição que decorrerá na zona do Ancoradouro da Taipa, dá a conhecer este pedaço de terra aos visitantes e episódios históricos que aí tiveram lugar.
A mostra inclui numerosos artefactos de significado histórico, incluindo mapas antigos de Macau tais como o “Mapa do Ancoradouro da Taipa e de Macau do século XVIII” e o “Mapa de Macau e das ilhas das imediações (1891)”, assim como livros antigos como Hai Dao Tu Shuo (Roteiro Náutico) e Guangdong Tongzhi da dinastia Qing.
A este propósito recordo algumas informações sobre a Taipa. Veja-se o que refere o "Regulamento da Alfândega de de Macao" em 1845 sobre a Taipa (excerto):
Art. 1- Os capitaens de navios mais embarcaçoens mercantes nacio naes ou estrangeiros que a Rada de Macao ou Taipa sáo a receber o registo de Alfandega bem assim a vizita do guarda mor de quem suas vezes fizer; os navios que ancorarem da Barra com carga receberað alem da vizita os guardas que o guarda mor collocar para vigia navio
Art. 2- Quando os navios a descarregar mercadorias para os capitaes sáo obrigados a no registo se effectuara a dentro do porto ou na Taipa.
Art. 3 - Os navios que entrarem ancoradouro da Taipa poderāo para Macao ou para outros alli estacionados ou ficarem com mercadorias abordo não sendo a nenhum fazer leiloens de alguma alli.
Art. 4 - He exceptuado da regra cima o artigo Opio.
Art. 5 - Os navios que na Taipa findos 14 dias sáo a pagar a ancoragem de 5 mazes toneladas e esta ancoragem vallera o navio por hum anno quer entrem ou saiāo dentro do anno huma ou vezes sáo sujeitos a ancoragem so embarcaçoens de 100 toneladas cima. Art. 6 - Quando tenhão de em Macao os capitaens dos dentro de 48 horas depois de sáo obrigados appresentar manifesto n alfandega em Portuguez com a divida descripcio dos artigos volumes marcas numeros e dos consignatários.
Art. 7 - Os capitaens dos fundeados na Taipa ou no rio essencialmente responsavies abordo inteira execuqāo das ordens que forem communicadas da parte dálfandega. (...)
Mapa de 1912

No livro de "Instrucc̨ões para navegar nos mares da India e China" escrito por James Horsburgh em 1845 também encontramos referências à Taipa:
(...)"Porto de Macao" que se forma entre a peninçula e a Grande Ilha Tui Lien Chau a Oeste hé estreito na entrada porèm tem 21 e 20 pés na baixamar chegado Forte de S Yago o qual está situado na ponta de Leste e daqui ao longo da de Leste Até á Cidade os fundos continuaõ quasi a ser os mesmos. Hum navio que vai para o porto he preciso que passe pella Taipa visto haver 13 pés na baixamar pelo meio do caminho entre a Taipa e a entrada do porto, porêm so mente 12 e 11 pés pelo grande espaço entre Cai cong e Macao.
O canal fica numa linha recta des o âncoradouro de Taipa atè á entrada do porto e para evitar a Pedra Mio (huma rodha alagada obra de 3 de milha a Leste da ponta do NE de Macacarira) he preciso cônservar a ponta do NE da montanha aberta a Leste de Macacarira ou ao passalla vê-se hum pouco mais do que por meio canal para a banda de Caicong. Daqui, goverme-se direito para a entrada do porto visto não haver outro perigo, excepto Panlangchi, huma rocha que ha da banda de Leste do canal do qual demora a ponta exterior do Mallou chou grande O 16 SO e a ponta do Forte de S Yago. (...). A ponta do NE da montanha enfiada pela ponta de Leste de Macacarira conduz saffo a Oeste de Pan Lang Chi e hum navio não hirà mui chegado a ella se a caso se não puzer a Leste de tirada da ponta de Oeste de Cai cong até à ponta do Forte de S Yago. Esta ponta se deverá montar de bastantemente perto ao entrar no porto e se quasi chegado à terra de Leste até ao ancoradouro que está emparelhado com a cidade. Alcançando licença do Governador hum navio destroçado pode virar de crena e reparar se neste porto, e em tal caso concederaó a hum Pratico o trazello da Rada, ou da Taipa, ao porto; porêm qualquer navegante adherindo às instrucções precendetes ou tendo em seu poder o excelente plano do Capitaõ P Heywoode, publicado por Laurie e Whittle em 1809, pode entrar com segurança na Taipa sem Pratico. (...)