quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Filipe Emílio de Paiva e o "Álbum de Viagem"

Volto hoje ao livro/diário de Filipe Emílio de Paiva (1871-1954), "Um marinheiro em Macau 1903-1905" para mostrar mais algumas imagens do livro, mais alguns excertos e, pela primeira vez, uma fotografia do próprio.
Emílio de Paiva foi oficial da armada - com o nome de Filippe - em todas as colónias portuguesas do seu tempo. Em Macau assumiu as funções de oficial imediato da canhoneira Diu, em missão de serviço na Estação Naval de Macau entre 25 de Abril de 1903 e 28 de Fevereiro de 1905.
Foi ainda escritor tendo registado a sua passagem pelo Extremo-Oriente, incluindo Macau. Num dos poucos registos publicados na imprensa da época podemos encontrar um artigo da sua autoria na edição de 20 de Outubro de 1903 da Revista Portugueza Colonial e Marítima.


(...) "Anda nas ruas a procissão chinesa em honra do deus Kuang-ti, suponho que é o deus dos Exércitos, por isso durante estes três últimos dias de Julho de 1903, tem vivido, o bairro china, uma contínua agitação e barulho. Vindos de Cantão, de Sam-Sui, de Hong Kong, de todas as ilhas, da Taipa, da Lapa, de Ma-lau-chau, Coloane, etc., estão continuamente a desembarcar das lorchas, juncos, tancás e vapores, milhares de forasteiros que, risonhos, de fatos ricos, se dirigem para os colaus, hospedarias e restaurantes chineses a tomar lugar, sobraçando leque, sombrinhas e maletas forradas de pele de porco, cestos e embrulhos. Talvez estejam mais de cem mil forasteiros.
No bairro china, ou Bazar, naquelas vielas e estreitas ruas, na Rua da Felicidade, na do Auto, na do Jogo, e noutras, acotovela-se gostosamente uma multidão alegre, de cabeças bem escanhoadas e de rabichos bem entrançados acabando em delicada borla de torçal negro, ou branco, se se está de luto. Estala a panchonada, e os tantans soam por todas as ruas, vendedores ambulantes ajoujados sob o peso dos tabuleiros e canastras de bambu e rota atravessam a turba e fazem bom negócio com os bolos, frutas, refrescos, chá, sopas diferentes, carnes de porco, patos, galinhas, rodas de ananás, confeitos, pevides, amendoim, enfim mil comestíveis que se compram a ínfimas sapecas.
As pipa-t'-chai, ou sejam rapariguitas gentis que foram desde pequeninas educadas a saber cantar e tocar, e que adornam os colaus com as suas caritas pintadas e penteados cobertos de flores e de alfinetes de pérolas finas, falsas ou não, estrearam cabaias novas ornadas com desenhos e bordados exóticos, e andam doidas de contentes em grupos alegres, correndo nos jerinxás, de lenço bordado e lequezinho nas finas mãos de esfusiados deditos. (...)"

"Permanecendo um certo tempo em Macau, mais tarde ou mais cedo, tem que se ir aos tintins, ou lojas de bricabraque chinesas. Aglomeram-se estas lojas por detrás da Igreja de Stº António. Tudo o que há de mais esquisito e disparatado em mobílias, loiças, antigas e modernas, chinesas ou europeias, aparece no amontoamento destas lojas, de envolta com lixo, maus cheiros, a cozinha e o menage dos proprietários.
Quem tem paciência para andar de um para outro tintin, rebuscando, regateando, consegue às vezes, mas raramente, encontrar algum bordado antigo e raro, alguma porcelana, jarra ou chávena de algum valor, e que se adquire barato. Porém isto já está tão explorado, e como em Hong Kong o mercado é maior e mais rico, os tintins de Macau nada dão ao curioso, que recompense a maçada de regatear com os chineses, discutir, entrar e sair em recusas de oferecimentos cinco ou seis vezes na mesma loja. (...) Mas nestas lojas está tudo amontoado! São barracas que extravasam a rua. louças, botas e sapatos, ferragens, armas, pratos e estatuetas, oleografias, números dos jornais ilustrados, ingleses ou franceses, tudo isto abrigado do sol ou da chuva por toldos seguros por varas de bambu, ou ripados de tábuas negras ardidas pelo sol e pela chuva. (...) É isto o que se chama um tintin."
Imagens de "Um Marinheiro em Macau -1903 - Álbum de Viagem"
de Filipe Emílio de Paiva. Museu Marítimo de Macau, 1997

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O "Victoria" nos tempos do cinema mudo

No início do século XX o cinema chegava a Macau. Henrique de Senna Fernandes, apesar de nascido em 1923, registou para memória futura esses tempos no livro "Cinema em Macau". Segundo ele "era uma diversão desprezada, qualquer coisa equiparada à exibição de saltimbancos, apresentado em barracões de feira, que se admirava com curiosidade despicienda e sorriso desdenhoso, e de que até se tinha vergonha de falar”.Nesses tempos dos “filmes mudos em barracões sujos e desconfortáveis, em pleno Bazar, coração da cidade chinesa” surgiram vários cinematógrafos.
Do Chip Seng, na Rua da Caldeira, com bilhetes entre os oito e os 35 avos, ao Tin Lin, no Largo de Hong Kong Mio, com preços entre os dez e os 50 avos. Havia ainda o Olympia, na Rua do Hospital (actual Rua Pedro Nolasco da Silva) e partir de 9 de Janeiro de 1910, na actual Rua do Dr. Soares (então Rua da Cadeia), junto ao edifício do Senado, surge o Victória. Naqueles primeiros tempos, ainda em construção abarracada os filmes exibidos eram essencialmente curtas metragens. O Victória (que tb terá existido na Calçada Oriental) viria a mudar de instalações em 1921 passando para o edifício no cruzamento da Rua dos Mercadores com a Av. Almeida Ribeiro, (até 1971) onde hoje se situa o banco Tai Fung.
Ainda de acordo com Henrique de Senna Fernandes “Apesar de todos os espectáculos, o Vitória foi essencialmente uma casa de cinema. E citamos o Vitória, porque foi nele que se desbobinaram os melhores filmes mudos, não havendo outro cinematógrafo que se lhe equiparasse”.
Vejamos então quais os êxitos de bilheteira da época quando o sonoro dava os primeiros passos e o mudo ainda vingava: “O êxito de Fairbanks era tão grande entre a rapaziada de Macau que, nos dias que se seguiam à estreia das suas películas, desapareciam dos jardins, hortas e quintais, pela cidade e fora de portas, todas as estacas de bambu, convertidas em espadas para a petizada se esgrimir em grupos rivais, com grande perigo para os olhos e desespero de jardineiros e horticultores que então abundavam nesta Terra do Nome de Deus”.
Além de Fairbanks havia ainda Charlie Chaplin: “O maior deles foi sem dúvida Charlot. A sua aparição na tela (...) enchia o Vitória. Os chineses, simplesmente, adoravam-no.”Já quanto às condições da sala de cinema, a opinião era bem diferente: "Quem desconheça o Vitória poderá julgar tratar-se de um cinema confortável, luxuoso, de bons assentos, e à altura dos magnífico, filmes que exibia. (...) Denominando-se a primeira casa de espectáculos, sem outra a fazer-lhe sombra, era, assim, um monumento de desconforto".

domingo, 10 de dezembro de 2017

Alcino António Sauvage


Filho de Silvestre Joaquim Sauvage e de Eulália Carolina Fonseca d’Almeida e Sauvage, Alcino António Sauvage assentou praça a 17 de Março de 1860.
Frequentou o curso de Artilharia (1867) e de Engenharia (1868), ambos na Escola Matemática e Militar de Goa. Desconhece-se o que fez período de tempo que se seguiu, mas sabe-se que foi de Lisboa e não de Goa que partiu quando a 12 Setembro de 1874, foi nomeado Conductor de Obras Públicas da Província de Macau e Timor. Na mesma data foi promovido a Alferes.
Toma posse do lugar, em Macau, a 6 de Dezembro desse ano. A 11 de Abril 1877 foi nomeado chefe de secção de Timor, para onde partiu a bordo do barco holandês “Trio”. Chegou a Timor a 2 de Junho de 1877 e esteve no território até 16 Dezembro de 1878. Durante a sua estadia fez parte de duas comissões; uma que inspecionou as companhias de Timor e outra relacionada com o funcionamento das alfandegas.
Retomou o seu lugar como Condutor de Obras Públicas em Macau em a 19 de Janeiro de 1879.
Tenente em 28 de Outubro de 1880.
Desempenhou o cargo de Director interino das Obras Públicas de Macau e Timor em 1881, trabalho pelo qual recebeu um louvor. Voltou a desempenhar este cargo por diversas vezes. Entre elas, pelo menos nos períodos compreendidos entre 14 Novembro de 1884 e 26 de Novembro de 1885, de 2 de Novembro de 1888 a 24 Maio de 1889 e entre 5 de Julho de 1892 a 15 de Dezembro de 1893.
Em diversos períodos foi Secretário do Conselho Técnico de Obras Públicas e pertenceu a diversas comissões.
A 30 de Novembro de 1885 embarcou para Goa com seis meses de licença que mais tarde foi prolongada por mais um ano. Regressou a Macau 5 de Maio de 1887. Durante esse ano e os que se seguiram foi o responsável pelos edifícios públicos, fortalezas, quartéis jardins e arborização da cidade de Macau. Trabalhou por exemplo na construção de uma parte da muralha marginal na Praia Grande em 1875.
Capitão por decreto em 12 de Abril de 1888.
A 9 de Fevereiro de 1893 foi nomeado Conductor de 1ª classe.
Nos primeiros meses de 1894 regressa a Lisboa com uma licença por motivos de Saúde, que se prolongaria por todo esse ano. A 6 de Fevereiro de 1895 foi exonerado do cargo nas Obras Públicas de Macau e passa para a 4ª Repartição da Secretaria de Estado dos Negócios da Marinha e do Ultramar.
Texto de Alice Santiago Faria in "Construindo o Imperio Português no Século XIX", 2013

sábado, 9 de dezembro de 2017

Foto-Legenda: Rua de S. Lourenço/Rua do Padre António

Clicar na imagem para ver em tamanho maior
Curiosidade: A Rua do Padre António é uma homenagem a António José da Costa, nascido em Macau, e cujo pai tinha o mesmo nome. O pai foi um comerciante abastado chegando a ser vereador do Senado e interinamente governador, em Janeiro de 1780, na sequência do falecimento do então governador, tendo exercido esse cargo apenas 8 meses. Após a tomada de posse do seu sucessor, recolheu-se à sua residência, conhecida por Casa das Dezasseis Colunas. O seu filho herdou inúmeros bens, incluindo a já referida casa, conhecida em chinês por “sâp lôk chü” (ou seja, dezasseis colunas), devido ao facto de o prédio possuir esse número de pilares. Depois de ficar viúvo abraçou a vida religiosa ficando conhecido por Padre António. Tal como noutros exemplos de ruas de Macau também aqui o nome em português nada tem a ver com a designação em chinês. Em cantonense a rua chama-se “Kou Lau Kái” (高樓街, Kou (alto), Lau (prédio) e Kái (Rua), ou seja, Rua do Prédio Alto.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Nossa Senhora da Conceição


A Imaculada Conceição ou Nossa Senhora da Conceição é, segundo o dogma católico, a concepção da Virgem Maria sem mancha (em latim, macula) do pecado original. O dogma diz que, desde o primeiro instante de sua existência, a Virgem Maria foi preservada por Deus da falta de graça santificante que aflige a humanidade, porque ela estava cheia de graça divina. A Igreja Católica também professa que a Virgem Maria viveu uma vida completamente livre de pecado.
A festa da Imaculada Conceição, comemorada em 8 de dezembro, foi definida como uma festa universal em 28 de Fevereiro de 1476 pelo Papa Sisto IV.
A 1 de Dezembro comemora-se a Restauração da Independência de Portugal (1640), então sobre o domínio de Filipe III de Portugal e o IV de Espanha. Este rei jurou e fez jurar a todas as Corporações eclesiásticas, Universidades e Catedrais dos seus domínios, o defender o Mistério da Conceição Imaculada.
Seia depois, “a 25 de Março de 1646, a Corte e os representantes dos três Estados (clero, nobreza e povo) sob proposta de D. João IV, proclamaram a Senhora da Conceição como Rainha e Padroeira de Portugal e juraram defender sempre esse privilégio augusto e celebrar com muito particular afecto e solenidade a sua festa”, de acordo com Benjamim Videira Pires, que acrescenta:
“Em 11 de Setembro desse ano, expediram-se cartas para todas as Câmaras da metrópole e do Ultramar, a fim de que as respectivas autoridades, com o clero, a nobreza e o povo, ratificassem e repetissem o acto da Corte e dos três Estados, elegendo também e proclamando Padroeira deste Reino, a Virgem Nossa Senhora da Conceição”.
A imagem da Imaculada Conceição foi colocada no centro da fachada da então igreja Mater Dei (hoje ruínas de S. Paulo), em 1640. Por cima está a estátua de Jesus Adolescente e, mais alto ainda, a do Espírito Santo.
A estátua da Imaculada pode ser vista em várias igrejas de Macau e até no Salão Nobre do edifício do Leal Senado, encontra-se um oratório com as estátuas de Nossa Senhora da Conceição.
Imaculada Conceição, elevada em 1646, por desejo do Rei D. João IV, a padroeira de Portugal e no ano seguinte de Macau, sendo por isso o dia 8 de Dezembro feriado oficial. É um dos quatro padroeiros de Macau, a par de João Baptista, Santa Catarina de Sena e S. Francisco Xavier.

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

"As obras do porto e a política chineza": 1920





Em Agosto de 1910 o governador de Macau, Capitão Eduardo Augusto Marques enviou a Lisboa, o director das Obras Públicas, engenheiro (civil e de minas) António Pinto de Miranda Guedes, com o objectivo de acelerar a solução política de alguns problemas estruturais de Macau, essencialmente ligados às obras no porto interior e no porto exterior.
Entretanto deu-se a implantação da República em Outubro e Miranda Guedes esteve quase a ser Governador de Macau. Acabaria por ser nomeado provisoriamente em Novembro de 1910 Governador de S.Tomé e Príncipe (menos de um ano depois foi exonerado). Em 1913 seria louvado pelo trabalho técnico que desenvolveu nas Obras Públicas de Macau onde foi director. Este livro, publicado no Porto em 1920, inclui os vários artigos da autoria de A. Pinto de Miranda Guedes publicados primeiramente em separatas na Revista Colonial.
Curiosidade: Em Janeiro de 1933 a antiga Rua do Asilo foi rebaptizada de “Rua de Eduardo Marques” em homenagem ao antigo governador.
O arruamento tem início na Estrada do Cemitério e prolonga-se até à Calçada da Igreja de S. Lázaro e Rua de S. Miguel.
Biografia
A. Pinto de Miranda Guedes completou o curso de Conductor de Obras Públicas no Instituto Industrial e Comercial de Lisboa. Estudou Engenharia Civil e Minas na Escola do Exército tendo frequentado o curso nos anos lectivos de 1894-95 a 1896-97.
Em Agosto de 1897 foi nomeado Conductor de Obras Públicas de 1ª classe, provavelmente, para a província de S. Tomé e Príncipe para onde segue viagem a 23 de Outubro. A 8 de Novembro desse mesmo ano foi nomeado para o cargo de Director Interino das Obras Públicas de S. Tomé, cargo que ocupou até Janeiro de 1898. Entre Outubro de 1899 e Abril de 1901 trabalha no estudo de Caminho de ferro de S. Tomé.
Transferido para a Direcção de Obras Públicas da província de Angola por portaria de 6 de Novembro de 1900, para o cargo de Engenheiro Auxiliar. Toma posse do lugar a 13 de Abril de 1901.
Em Janeiro de 1902 regressa a S. Tomé para chefiar a brigada de estudos das estradas da ilha, regressando, depois de alguns meses de licença em Portugal. Em Julho de 1903 regressa a Angola para trabalhar no Caminho de ferro de Malange como chefe de divisão dos estudos. No fim desse ano volta a chefiar a secção de Agrimensura.
Em Julho de 1904 volta para Lisboa, por motivos de saúde, onde ficou aproximadamente um ano. Em Maio de 1905 foi nomeado para estudar o sistema viário de S. Tomé, ficando como engenheiro ajudante no Ministério das Obras Públicas. Para efectuar esse estudo deslocou-se ao território, de onde regressou apresentando-se no Ministério das Obras Públicas em Fevereiro de 1906.
A 20 de Setembro de 1906 foi nomeado Director das Obras Públicas de Macau.
Durante a sua estadia colaborou com o General José Emílio Castelo Branco em projectos de melhoramentos sanitários da cidade de Macau, tendo ficado responsável pela elaboração do “Projecto e Plano Geral de Saneamento de Macau” aquando do regresso do General Castelo Branco a Portugal. Foi presidente da comissão de saneamento da zona do Bazar Chinês e trabalhou também no projecto de melhoramentos do Porto de Macau. Ocupa este cargo entre 3 de Novembro desse mesmo e Agosto de 1910.
No início de Novembro de 1910 foi nomeado, provisoriamente, Governador de S. Tomé e Príncipe. Foi exonerado desse cargo em Setembro de 1911 tendo seguido para Macau e reassumido as suas funções de Director das Obras Públicas a 18 de Novembro de 1911.
Em Dezembro de 1911 fez parte de uma comissão de organização de um serviço de profilaxia de doenças tropicais e trabalhou na aplicação do regulamento de salubridade das edificações urbanas de 1906. Fez ainda parte da direcção do Museu Luiz de Camões, tendo sido nomeado em março de 1912.
Esteve em Macau até Abril de 1914 quando foi exonerado do seu lugar, a seu pedido.
Em Novembro de 1914 tomou posse como Director dos Caminhos de ferro de Angola, cargo de que tomou posse a 6 de fevereiro de 1915.
Em Março de 1917 foi nomeado para a Direcção das Obras Públicas da Índia, mas não chega a ocupar esse lugar por ser sido de imediato transferido para o lugar correspondente em Moçambique. Tomou posse em Moçambique a 1 de Outubro de 1917 e até ao fim desse ano acumulou o lugar com o de Inspector das Obras Públicas, o que acontece novamente no início do ano de 1919. Em Maio de 1919 foi exonerado do cargo de Director das Obras Públicas e segue para Lisboa em meados de Agosto desse mesmo ano.
A 15 de Novembro de 1920 foi nomeado secretário dos serviços de Obras Públicas de Angola e partiu novamente para o território de onde regressou em 1922 por motivos de saúde, sendo considerado em Janeiro de 1923 incapaz de voltar a fazer serviço no Ultramar.
Desde essa data passou a trabalhar nos serviços técnicos da Câmara Municipal do Porto, como chefe da Divisão de Obras Públicas e mais tarde (depois de 1927) como Director dos Serviços Municipalizados de águas e Saneamento, lugar que ainda ocupava em 1931.
Fez parte do Conselho Superior de Obras Públicas e do Conselho Inspector de Instrução Pública, entre diversas comissões sobretudo ligadas a assuntos dos territórios ultramarinos.
Deixou diversas publicações sobre o seu trabalho nas colónias, nomeadamente sobre as Obras do Porto de Macau, sobre Angola e sobre a sua experiencia como Governador de S. Tomé.
Texto (Biografia) de Alice Santiago Faria.

segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

"Coolies Reading a Proclamation"

Na imagem ao lado um dos muitos registos que George Chinnery fez enquanto viveu em Macau com o título "Cules lendo uma proclamação em Macau".
"Coolies Reading a Proclamation, Macao" antique print from a salvaged 1927 copy of magazine "The Studio"- An Illustrated Magazine of Fine & Applied Art (vol. 94) from an oil painting by George Chinnery ca. 1840.
George Chinnery (Chinese: 錢納利; 5 January 1774 – 30 May 1852) was an English painter who spent most of his life in Asia, especially southern China. 
Chinnery was born in London, where he studied at the Royal Academy Schools. In 1802 he sailed to Madras (Chennai) on the ship Gilwell. He established himself as a painter there and then in Calcutta (Kolkata), where he became the leading artist of the British community in India.
From 1825 until his death in 1852 Chinnery based himself in Macau, but until 1832 he made regular visits to Canton (now Guangzhou). He painted portraits of Chinese and Western merchants, visiting sea-captains, and their families resident in Macau. His work in oil paint was closely imitated by the Cantonese artist Lam Qua, who himself became a renowned portrait painter. Chinnery also painted landscapes (both in oils and in watercolours), and made numerous drawings of the people of Macau engaged in their daily activities. At the time, westerners were restricted in their access to China, trading out of settlements in Macau and later Hong Kong, where Chinnery also went - His interest in the local scene does indeed set him apart from most western artists of the time. In 1846 he made a six-month visit to Hong Kong, where he suffered from ill health but made detailed studies of the newly founded colony. He died in Macau on 30 May 1852 and is buried there.
Other than artistic value, his paintings are historically valuable as he was the only western painter resident in South China between the early and mid 19th century. He vividly depicted the life of ordinary people and the landscape of the Pearl River Delta at that period.
Substantial collections of Chinnery's drawings are to be found in London in the Victoria and Albert Museum and the British Museum; and in Salem, Mass., at the Peabody Essex Museum. Other notable groups are held in Birmingham Museum and Art Gallery, UK; the Hong Kong Museum of Art; the Macau Museum; and the Macau Museum of Art.


domingo, 3 de dezembro de 2017

Quando Macau mudou para que tudo ficasse na mesma

No dia 3 de Dezembro de 1966, com os ventos da revolução cultural chinesa a soprarem fortes em Macau, uma multidão amotinada atacou vários símbolos da administração portuguesa, incluindo o Palácio do Governo e o Leal Senado.
Foi o culminar de um período de tensão que começou com um incidente relacionado com as obras numa escola da Associação dos Estaleiros da Ilha da Taipa.
Em 2016 a Rádio Macau emitiu uma reportagem da autoria do jornalista Hugo Pinto, na qual se recordam os tumultos e também o que esteve por detrás de toda a agitação. O texto que se segue é uma adaptação do guião da reportagem.
Aqui no blogue existem vários posts sobre o tema; basta utilizar o campo de pesquisa (no topo à esquerda) e/ou a etiqueta "eventos1966" (em baixo à direita).
Esta é uma história de ideias radicais, de duas visões extremas do mundo, de como se confrontaram e de como foram usadas para atingir objectivos não declarados. É uma história de como a radicalização do discurso foi alimentada para construir uma narrativa e conduzir a uma acção. É a história de quando os extremos se opuseram e, em Macau, alguma coisa teve de mudar, para que tudo ficasse na mesma.
A antecâmara
“Eu estava a jantar quando ouvi um barulho enorme. Já sabia um bocadinho de chinês. Cheguei à janela e vi um grupo enorme, que tinha vindo do lado do Hospital Kiang Wu, para baixo, com bandeiras, a ofender os portugueses. Dirigiam-se aqui para a Avenida Almeida Ribeiro, nessa noite, no dia 1. No dia 2, fui trabalhar. Quando fui comprar um maço de cigarros, a vendedora diz que não vendia cigarros a portugueses. Quando saí do serviço e fui apanhar o autocarro para casa, a revisora disse-me que ia deixar-me entrar, mas que, no dia seguinte, não, porque era proibido os portugueses usarem os transportes públicos”.
Há 50 anos, nos primeiros dias de Dezembro de 1966, António Cambeta testemunhou o que pouco antes parecia impensável em Macau.
A população chinesa, desde sempre maioritária na então colónia portuguesa, revoltava-se contra as autoridades. Não era a primeira vez, mas já tinham passado mais de quatro décadas desde a última grande revolta. E agora sopravam da China os ventos da revolução cultural. Uma onda vermelha ameaçava cobrir o país e Macau não escapava. “1,2,3”. Foi assim, numa alusão à data (o dia 3 do mês 12), que ficaram conhecidos os acontecimentos que culminaram um período invulgarmente tumultuoso, que começou a 15 de Novembro.
Na manhã desse dia, cerca de uma centena de jovens começam a montar andaimes e a destelhar três velhas casas na Taipa, na Rua Direita Carlos Eugénio. Ali ao lado pretendia-se construir uma escola primária para os sócios da Associação dos Estaleiros da Ilha da Taipa. Num relatório secreto, a Polícia Internacional e de Defesa do Estado (PIDE), haveria de escrever que “os comunistas requereram licença para construir uma escola há cerca de oito meses”, mas o pedido ficara esquecido na gaveta. O administrador do Concelho das Ilhas, Rui de Andrade, assistiu à demolição quando passava de carro. Intrigado, enviou polícias ao local. Foram mal recebidos e os desacatos não tardaram, resultando em dois feridos e seis chineses detidos. Entre a comunidade e na imprensa de língua chinesa falava-se em 40 feridos.
Eram falsidades, acusa Moisés Silva Fernandes na obra “Macau na Política Externa Chinesa entre 1949 e 1979”, onde o investigador da Universidade de Lisboa aprofunda o período do “1,2,3”. O académico escreve que o objectivo, traçado pela chamada “elite chinesa”, era provocar uma reacção: em Macau, mas também na China. Era dessa forma que as figuras proeminentes da sociedade chinesa de Macau procuravam legitimar-se perante a liderança comunista. Tinha sido há poucos meses que Mao Tse-tung lançara o país na Revolução Cultural. Na China, estava em curso uma campanha de purificação de todas as esferas da cultura, da política e da sociedade.
Ninguém estava a salvo. Nem o presidente, Liu Shaoqi, que chegou a ser acusado de contra-revolucionário. Algo tinha mudado no outro lado da fronteira, onde as autoridades portuguesas não costumavam ver motivos de preocupação.
Num dos discursos que proferira, Lopes dos Santos, que governou Macau entre Abril de 1962 e Novembro de 1966, afirma que Portugal tinha “uma tradição de paz e amizade (...) sem nunca ter feito a guerra, como o próprio Mao reconhece”.
Em Novembro de 1966, Lopes dos Santos pediu a exoneração alegando motivos familiares. Salazar nomeou como sucessor Nobre de Carvalho, que foi posto ao corrente do que se passava na China com a revolução cultural, mas não em Macau. O novo governador só chegaria a Oriente no dia 25 de Novembro. Até lá, Mota Cerveira seria o encarregado do Executivo. Coube a este comandante militar liderar as primeiras negociações após o incidente da Taipa. A Mota Cerveira os chineses reclamaram uma indemnização para as vítimas da carga policial e a demissão do segundo-comandante da PSP e do administrador do Concelho da Ilhas.
As negociações ainda decorriam quando Nobre de Carvalho chegou a Hong Kong sem saber que se passava em Macau, como confessou o ex-governador ao jornalista Ricardo Pinto, numa reportagem para a TDM, em 1996: “O governador foi daqui [de Lisboa] sem saber o que se estava a passar em Macau. Vim a saber que estavam tendo lugar acontecimentos sérios pelo governador de Hong Kong, quando me foi receber no aeroporto de Kai Tak, e me fez saber que a situação era preocupante”.
Em Macau, Nobre de Carvalho rapidamente mergulhou nos problemas em que o território se afundara. Face à recusa de ceder às exigências chinesas, a imprensa, com o diário Ou Mun à cabeça, intensificava a campanha de ataques contra a administração portuguesa. Os guardas-vermelhos começavam a marchar pela cidade.
Reivindicação sobe de tom
Em Macau há dois anos, onde cumprira o serviço militar, António Cambeta, então funcionário numa agência comercial, olha para trás e recorda que havia entre a comunidade chinesa um mal-estar que, de repente, transbordara: “Havia dentro da população chinesa um rancor acumulado ao longo dos anos, porque a administração portuguesa era toda corrupta e tratava mal os chineses. Não havia chineses em postos de comando. Nunca houve, quase até à entrega de Macau à China. Para tratar qualquer assunto, em qualquer departamento público, era tudo à base de dinheiro. Os chineses já estavam cheios. Aproveitaram a circunstância da revolução cultural na China para dar a volta ao sistema”.
Com o passar do temo, o tom ia subindo. As exigências aumentavam. Não bastavam já as duas demissões, nem as compensações monetárias. Era preciso também apresentar um pedido de desculpas ao jornal Ou Mun, acusado de agitador, e ainda tirar os cassetetes aos polícias. A administração portuguesa tinha também de reconhecer publicamente os erros cometidos a partir de 15 de Novembro. Mas a pressão começou a chegar também de Hong Kong, através da agência de notícias oficial chinesa, a Xinhua. Tudo em crescendo até ao dia 3 de Dezembro, quando o átrio do Palácio do Governo foi invadido. No exterior juntavam-se já centenas de manifestantes. Jovens, na maioria. A polícia carrega. Jactos de água e gás lacrimogéneo são lançados sobre a multidão, que, entretanto, se concentra junto ao tribunal, na Praia Grande, e também no Leal Senado. Sem resistência, a então Câmara Municipal foi invadida e saqueada, bem como a secretaria notarial, ao lado da Farmácia Popular.
Eduardo Tavares, seminarista em 1966, recorda o momento em que o padre Manuel Teixeira, historiador e então membro da comissão para o restauro dos códices rasgados, acorreu ao Leal Senado: “Estava num dos corredores do Seminário de São José e ele [padre Teixeira] desce as escadas do terceiro para o segundo andar, assim muito apressado. Perguntei-lhe, ‘então senhor padre, onde é que vai?’ E diz, ‘ó rapaz, cala-te, vou salvar Macau.’ Porque é que ele diz isso? Porque houve exageros e um dos exageros foi ir ao Leal Senado e deitar as coisas para a rua, livros e outras coisas. Outro foi ir ao cartório notarial e também muitas coisas voaram. E então ele diz que foi salvar aquilo. E parece que foi, que ainda apanhou muita coisa”.
Para o padre Teixeira, aquele tinha sido o pior golpe que o arquivo sofrera. O historiador estimou que um terço dos manuscritos estavam perdidos. Passados 50 anos, o agora ex-padre Eduardo Tavares recorda que, na altura, era difícil não perceber que algo estava mal em Macau, mesmo com a protecção dos superiores, que não queriam os noviços alarmados pela tensão: “A gente ouviu durante aquele ano de 1966, até Julho de 1967, os altifalantes em muitas partes da cidade, com ‘slogans’ contra portugueses, americanos, estrangeiros. Havia ali uma certa xenofobia”.
Um dos símbolos detestados do colonialismo estava no centro do Leal Senado. Era a estátua do herói macaense da batalha do Forte de Passaleão, o coronel Nicolau Mesquita.
A 3 de Dezembro de 1966, a estátua foi derrubada e arrastada para a casa de banho pública da Almeida Ribeiro. “Aqui é o teu lugar”, escreveram. António Cambeta afirma ter visto a estátua ser deitada abaixo por “chineses indonésios”. Também Moisés Silva Fernandes destaca que os “chineses ultramarinos da Indonésia foram instrumentalizados para precipitarem os distúrbios em Macau”. No dia 3, a força da autoridade sentiu-se com maior impacto quando a turba se aproximou do comando da PSP, na Rua Central. Já com os militares nas ruas, abre-se fogo contra a multidão, que começa a dispersar.
O governador impõe o recolher obrigatório.
Depois de, no dia 3, os manifestantes terem atacado os símbolos da administração portuguesa, no dia seguinte foi a vez de os alvos terem sido as instituições ligadas a Taiwan – associações e grupos de apoio a refugiados da República Popular da China.
Como acontecera antes, também desta vez os incidentes foram descritos por vários jornalistas, tanto chineses como ocidentais, como tendo sido organizados, nota Moisés Silva Fernandes. Ainda no dia 4 é feito o balanço dos incidentes: três mortos no dia 3 e cinco no dia seguinte. No total, oito mortos, todos chineses: um operário, um comerciante, um empregado, dois aprendizes e três alunos. Feridos terão sido mais de 200. A violência iria desaparecer das ruas de Macau, mas o mal já estava feito. Ao longo dos anos foram feitas críticas à actuação das forças de segurança – ora pela brutalidade, ora por não terem sabido actuar no tempo certo. António Cambeta, que iria integrar as forças de segurança, garante que havia “falta de preparação”, quer por parte dos polícias, quer por parte das tropas.
Manobras de bastidores
Depois dos incidentes, a necessidade de encontrar um desfecho para a crise levou a que a elite chinesa tivesse criado, com o apoio de Pequim, a Comissão de Luta Contra a Perseguição Portuguesa. Era a chamada “comissão dos 13”, que concertava as posições alinhadas com a China continental para negociar com o governador Nobre de Carvalho. Começavam novas manobras de bastidores.
Em fundo, um ambiente tenso e ameaçador, recorda António Cambeta: “Havia receio. Macau estava bloqueado. Havia navios chineses a controlar toda a área marítima de Macau”. Havia receio entre a comunidade portuguesa, mas também chinesa, acrescenta Cambeta: “A comunidade chinesa estava dividida em várias partes. Aqueles que sabiam a realidade da China tinham receio daquilo que os comunistas pudessem fazer, porque revolução cultural é uma coisa e o Partido Comunista Chinês, até ali, nunca tinha sido hostil para com Macau, antes pelo contrário. Precisava de Macau como contraponto de entrada e saída de mercadorias. O receio que havia era da revolução cultural. A maioria era malta nova, estudantes com outra mentalidade. Se viessem invadir Macau, o que aconteceria aqui? Os próprios habitantes chineses de Macau estavam divididos”.
Hoje, António Cambeta diz que o sentimento de há 50 anos teria ressonâncias quando Macau passou a ser administrada pela China. Era a incerteza. “O sentimento”, diz, “era quase igual”. Se nos anos 1990, a população de Macau vivia com a guerra das seitas nas ruas, nos anos 1960 eram outras as facções que também se digladiavam. Em 1966, assistiu-se ao maior agravamento do conflito entre comunistas e nacionalistas, os dois lados que tinham estendido até Macau a luta travada na clandestinidade. Exilados em Taiwan, os nacionalistas tinham na antiga colónia portuguesa uma importante base de apoio e liberdade de movimentos. Mas os comunistas, em Pequim, estavam atentos e seguiam de perto o que se passava. Salazar recusava dialogar com os comunistas, que considerava o grande inimigo. Devido à ausência de relações diplomáticas entre Portugal e a China, entre 1949 e 1979, as funções de mediação entre as duas partes foram desempenhadas pela chamada elite chinesa de Macau. Desde a chegada dos portugueses, em 1555, as autoridades chinesas usaram mandarins para gerirem Macau e contactarem com a administração portuguesa. O arranjo só foi desfeito em 1849, quando o governador Ferreira do Amaral expulsou as autoridades chinesas de Macau. Desde então, era à elite comercial chinesa do enclave que cabia a mediação. A partir de 1949, com a instalação no poder por parte dos comunistas, a elite chinesa volta a assumir um maior destaque. Em Macau, a elite chinesa controlava associações e escolas, recebia títulos honoríficos de Pequim e de Lisboa, e acumulava dinheiro e poder com as concessões, sobretudo do jogo e do ouro.
O metal mais precioso
A neutralidade de Portugal na Segunda Guerra Mundial deixou Macau de fora do conflito e também do acordo Bretton Woods, assinado com o objectivo de apertar o controlo sobre o preço do ouro no mercado global. Rapidamente, Macau tornou-se uma praça mundial do metal precioso. Entre 1949 e 1969, foram importadas para Macau 900 toneladas de ouro. Não há registos oficiais de terem saído do território, mas é de presumir que os lingotes tenham ido parar sobretudo a Hong Kong, onde terão sido revendidos. Caso contrário, como escreveu o investigador João de Pina-Cabral, as ruas de Macau estariam pavimentadas a ouro.
Desde o final da década de 1940 que o ouro era controlado por um consórcio formado por Pedro Lobo, chefe dos Serviços Económicos de Macau, e pelos empresários chineses YC Liang, e Ho Yin. Eram dois destacados membros da elite chinesa, composta pelos chamados “capitalistas compatriotas vermelhos”. A maioria pertencia à Associação Comercial Chinesa, onde pontificava Ho Yin, o patrão dos patrões.
Mas no final da década de 1950 e o principio da década seguinte, quando Jaime Silvério Marques governou Macau, os interesses desta elite, e em particular de Ho Yin, foram abalados pelas mudanças na atribuição de concessões, como recorda João Guedes: “Corria nessa altura, pouco antes do '1,2,3', que o governo português iria tirar a licença ao Ho Yin”. O investigador da história de Macau e ex-investigador da Polícia Judiciária recorda como importante o momento depois do atentado à bomba falhado contra Ho Yin, em Maio de 1966. A Polícia Judiciária, instalada em Macau havia dois anos, vai entrar em acção e desequilibrar o jogo de forças entre comunistas e nacionalistas: “Nesse momento, a Polícia Judiciária faz uma série de rusgas, nomeadamente em templos budistas, onde estava armazenado o armamento, e era muito, nacionalista. Alguns analistas dizem que isso terá desequilibrado definitivamente o jogo de forças em Macau. E os comunistas, que são muitos, mas não estão armados, finalmente encontram a oportunidade de passar para a mó de cima”.
De acordo com João Guedes, as associações tradicionais em Macau - das desportivas, onde se agrupavam as seitas, às de moradores - eram dominadas pelos nacionalistas, que também contavam com o apoio dos capitalistas: “Os comunistas praticamente não dominavam nada aqui em Macau, incluindo os dirigentes da Associação Comercial Chinesa, que eram todos nacionalistas. A Ho Yin há quem lhe chamasse comunista, no calor do ‘1,2,3’, como também ao Ma Man Kei. Ora, nenhum deles era comunista. O único era o Chui Tak Kei, o homem de quem não se fala. Falava português, é o homem que tem uma intervenção inicial no ‘1,2,3’, para a resolução da escola da Taipa, e depois a sua acção esbate-se, precisamente porque era do partido e o protagonismo é dado depois a Ho Yin e a Ma Man Kei”. João Guedes diz que no “1,2,3” se misturam diferentes agendas, nem sempre declarando à partida os objectivos. Havia muita encenação, diz o investigador: “Todas essas movimentações políticas da Associação Comercial e dos seus membros, e até dos comunistas, foram movimentações muito teatrais. Aquilo não correspondia seriamente ao que se passava. E depois foi por todos aproveitado. Também todo aquele caos da revolução cultural aproveitava a todos, nomeadamente ao governo chinês. Quando as coisas corriam mal, deitava as culpas para cima dos guardas vermelhos e estava resolvida a situação”. Foi neste contexto que a elite chinesa de Macau viu uma oportunidade na instabilidade política. Para Moisés Silva Fernandes, “era uma oportunidade única para os capitalistas compatriotas vermelhos prostrarem e fragilizarem a administração portuguesa”. O objectivo era evitar que a concessão do ouro caísse nas mãos da Sociedade de Turismo e Diversões de Macau, de Stanley Ho.
Mas não estavam em causa apenas os negócios da elite chinesa de Macau. O comércio do ouro também era de grande importância para a China. Com uma moeda que não era aceite no comércio internacional, Pequim vai depender do ouro transaccionado em Macau e Hong Kong: “É preciso ver que apesar de Macau ser muito pequeno em dimensão geográfica, por aqui sempre correram milhões e milhões. Pode dizer-se que cada membro da elite chinesa, como lhe chama Moisés Silva Fernandes, era um potentado e tinha a sua agenda, mas o Ho Yin tinha uma agenda particular, que era a do ouro”, observa João Guedes.
Segundo Moisés Silva Fernandes, a administração portuguesa era apenas “um actor menor no comércio deste precioso metal”, mas era ao mesmo tempo uma garantia. Daí que o regime de Mao Tse-tung, escreveu Moisés Silva Fernandes, tivesse adoptado uma postura de pragmatismo em relação à administração portuguesa de Macau. Nesse sentido, o investigador considera que “a dependência [do ouro] contribuiu para que [Pequim] tudo fizesse para garantir a continuidade da presença portuguesa no enclave (...) entre Dezembro de 1966 e Janeiro de 1967”, os dias mais quentes do “1,2,3”. À China de Mao convinha fazer uma demonstração de força, mas para “soviet” ver, diz João Guedes: “Era preciso, de alguma forma, satisfazer o comunismo e dizer que os imperialistas não estavam aqui à borla, nem com o consentimento dos comunistas chineses, e que quem mandava eram eles. Essa era a agenda do Partido Comunista Chinês, que não pretendia, de forma alguma, expulsar os portugueses daqui. Quem pretendia expulsar os portugueses, e nunca se fala disso, eram os nacionalistas. Eram eles que tinham essa agenda desde finais do século XIX”. Era um jogo de sombras, mas também um jogo de forças, no qual a elite chinesa sabia de antemão que Salazar queria a todo o custo evitar uma repetição do que tinha acontecido em Goa, em 1961, noutro fatídico mês de Dezembro.
A rendição de Goa
Cinco anos antes, em 1961, no dia 18 de Dezembro, a União Indiana atacou Goa, Damão e Diu com 30 mil homens, um número dez vezes superior aos três mil soldados portugueses que defendiam a chamada “Índia portuguesa”. Salazar dissera que não previa “tréguas nem prisioneiros portugueses”, apenas “soldados e marinheiros vitoriosos ou mortos”. Mas o governador Vassalo e Silva desobedeceu às ordens e rendeu-se em menos de 24 horas. Poucos dias depois da invasão de Goa, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Estado Novo, Franco Nogueira, propôs a Salazar uma viragem na política colonial. A mudança passava pela entrega de Macau à China. Salazar recusou dizendo-se “preso às ideias do passado”. Mas o ditador também se mostrava atento ao perigo vermelho que alastrava na Ásia, ameaçando toda a África. Por todo o lado, agitavam-se movimentos revolucionários e de independência. Salazar e o Estado Novo estavam cada vez mais isolados. “Orgulhosamente sós”.
Uma Igreja empenhada
Em Macau, fiel a Salazar era a Igreja, observa João Guedes: “A Igreja está dentro e fora da política ao mesmo tempo. Estando dentro da política, influencia directamente as decisões que são tomadas pelos políticos e, neste caso, pelo governador Nobre de Carvalho. Mas por outro lado, a Igreja não tem o tempo dos políticos. A Igreja tem a infinidade dos tempos. Há aqui uma questão de princípio muito clara. O Vaticano não reconhece os comunistas. Mais, o Vaticano está em guerra contra os comunistas”.
Para João Guedes, a Igreja tinha uma estratégia contra o inimigo comunista, e os padres em Macau faziam parte do esforço: “O padre Teixeira e todos os outros padres que estavam aqui, não eram de modo nenhum missionários isentos do ponto de vista político. Todos eles eram militantes da União Nacional, o partido único que havia em Portugal. A obrigação deles era dirigir politicamente o seu rebanho. [O bispo] Dom Paulo José Tavares, na altura, toma uma posição de firmeza contra os comunistas. Desde o princípio, dá ordens muito claras aos seus padres, que é lutar contra a subversão e enquadrar os alunos católicos. Ou melhor, os alunos que frequentam o ensino católico. E o ensino católico, nessa altura, tinha nas mãos quase toda a educação em Macau”.
Em Macau, a Igreja era a mais fidedigna caixa de ressonância de Salazar. A instituição há mais tempo em Macau, a Igreja tinha uma influência que ia além da tradicional esfera da comunidade portuguesa. Durante o “1,2,3”, esse poder foi usado, considera João Guedes: “Há uma tentativa de os comunistas obrigarem os estudantes das escolas católicas a seguirem a escola Hou Kong, nomeadamente na invasão do Palácio do Governo, e os alunos das escolas católicas são impedidos de o fazer. Isso demonstra que a Igreja Católica não tinha uma influência teórica sobre a população. Não, ela mandava, porque mandou que os alunos não colaborassem. E atenção, porque na altura, e hoje, a maioria dos professores era chinesa. E os católicos em Macau sempre foram muito poucos”.
A influência da Igreja de Macau chegava longe, sublinha João Guedes: “São os padres que mantêm Salazar informado do que se passava. Suponho que deve ter tido mais importância o que disse o cardeal Cerejeira ao Salazar, do que o que lhe disseram o governador Nobre de Carvalho ou Mota Cerveira, com os relatórios que fizeram aqui”.
Alguma coisa tem de mudar
A meio das negociações entre o governo português de Macau e a “comissão dos 13”, no dia 14 de Janeiro de 1967, Salazar escreve a Nobre de Carvalho. Com os acontecimentos em Goa ainda frescos na memória, o presidente do Conselho dava indicações sobre a atitude a tomar: “Não temos aí forças para bater as forças chinesas – seria uma impossibilidade – mas para garantir a ordem e lutar até ao extremo limite pela dignidade e pela soberania nacional. Contamos aqui que, em caso de necessidade, todos cumprirão o seu dever, mesmo com os maiores sacrifícios”.
Os “maiores sacrifícios” acabaram por ser o que muitos classificaram de humilhação. No dia 29 de Janeiro de 1967, um domingo, Nobre de Carvalho dirige-se à sede da Associação Comercial Chinesa, no Largo do Senado. Ali, em pouco mais de dez minutos, o governador assinaria dois documentos em que as autoridades portuguesas assumem toda a responsabilidade pelo que admitem ser “o incidente sangrento de 15 de Novembro na Taipa” e os “trágicos acontecimentos de 3 de Dezembro”. Comprometem-se também a não permitir “quaisquer actividades” de agentes nacionalistas no território. Ainda nesse dia, na China dá-se por terminada a “revolução cultural” em Macau. E
ra o fim de uma era, outra começava. Eduardo Tavares entende que “o ‘1,2,3’ deixou feridas em Macau que ainda não estão completamente saradas: "Entrei na comunidade chinesa e aperecebi-me que a compreensão não era muito grande. Essa falta de compreensão ainda se mantém. Ainda conheço hoje pessoas com mais de 70 anos que todas as recordações que têm são recordações negativas”. Depois do “1,2,3”, em Macau cumpria-se à letra o pensamento de Don Fabrizio, herói de “O Leopardo”, o romance de Giuseppe Tomasi di Lampedusa sobre os temores e a incerteza das revoluções: “É preciso que alguma coisa mude, para que tudo fique na mesma".
Agradecimentos: TDM - Rádio Macau (texto); Fotos: arquivo Blog Macau Antigo

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Passatempo 9º aniversário/ 40.000 pageviews em Novembro

A fazer história desde 2008, o blogue Macau Antigo celebrou este mês de Novembro o 9º aniversário com o segundo melhor registo de sempre em termos de leitores: mais de 40 mil pageviews (40.036) em apenas 30 dias.
Para assinalar o aniversário terá lugar de 1 a 15 de Dezembro um passatempo. Os autores das 10 melhores frases sobre este projecto vão receber em casa um exemplar do livro "Liceu de Macau 1893-1999".
Enviem as frases juntamente com nome e morada para o e-mail: macauantigo@gmail.com
Postal da Praia Grande com uma vista do Monte da Guia na década 1940/50

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Feira Industrial de 1926: discurso inaugural

No dia 7 de Novembro de 1926, um domingo, o Almirante Hugo Lacerda, governador interino de Macau na época, proferiu o discurso de abertura da da primeira Exposição Industrial e Feira de Macau. Uma ideia antiga do governador Rodrigo Rodrigues... que teria lugar em Mong-Há e esteve patente até 12 de Dezembro desse ano.
Excertos do dicurso:
"(...) Tudo o que vemos em volta, todas estas barracas vistosas e engalanadas, cheias de artigos de variado valor, partiu da ideia de se estabelecer um simples mostruário de produtos de Macau. (...) O que vemos em volta não representa um acontecimento isolado e com restrita significação como a alguns poderá parecer; liga-se fundamentalmente com todo o ressurgimento de actividades industriais e comerciais que de há tempos se notam nesta cidade, a despeito de todas as dificuldades do viver político da China; liga-se naturalmente com as previsões do aproveitamento do porto de Macau, este novo e valioso instrumento do progresso. Indústria, comércio, navegação e viação terrestre dão-se as mãos, quando há uma população obreira como a de Macau e a que há em volta de Macau. (...) Dentro do progresso material se deve contar muito em Macau com o benefício trazido por forasteiros; não basta a produção e o tráfego de mercadorias, é preciso atrair a concorrência de pessoas por todas as formas dignas de uma cidade moderna; é necessário considerar o valor do que se chama o Turismo. A Direcção das Obras dos Portos não tem descurado este importante aspecto da questão dentro dos limites das suas possibilidades, indo até ao ponto de fazer sacrifícios, como por exemplo o estabelecimento de uma pista de corridas de cavalos, nos terrenos conquistados defronte da Areia Preta, crente em que estes sacrifícios terão largas compensações indirectamente para o porto e sem dúvida mais directamente para a cidade. Pena é que não possamos fazer neste momento, também a inauguração deste melhoramento como se chegou a julgar possível. (...)
Recinto da feira
Voltando à exposição propriamente dita e atendamos também aos que nela trabalharam. O que está à vista não é mais do que uma tentativa, é certo, mas quando se considerem todas as dificuldades que resultaram dos fracos recursos, quando se considere ainda que tudo isto representa uma novidade para Macau, quando se atenda a que a maior parte do trabalho directivo e não directivo foi realizado com pessoal das Obras dos Portos, já tão sobrecarregado de serviços, fica-se defronte de qualquer coisa admirável; para cúmulo até a Natureza parece que quis experimentar a resistência do prestimoso Comissariado com um violento tufão que reduziu o que estava feito já em estado adiantado a um montão de ruínas. 
Foi esse momento crítico. Mas o momento mais crítico foi talvez aquele em que, havendo já compromissos importantes, foram negados quase totalmente os recursos ao Comissariado. Felizmente que essa enorme dificuldade foi removida, porque, a instâncias deste Governo, Sua Exa. o actual Ministro das Colónias, Capitão Tenente João Belo, autorizou que, pelos fundos do Conselho de Administração das Obras dos Portos, fosse aumentada aquela importância com $2000 (patacas). Creio que com esta experiência ficará bem vincada em todos a convicção da necessidade de nos futuros orçamentos da Colónia, ou na distribuição de verbas da Direcção das Obras dos Portos, se consignar a importância até pelo menos de $20 mil para anualmente se realizar a Feira de Macau. Aproveito ainda esta ocasião para dizer que este certame veio dar grandes facilidades para se realizar um melhoramento mais permanente – o estabelecimento dum museu comercial e etnográfico da Colónia - cuja falta se vinha fazendo sentir e mais se sentiria com o desenvolvimento da vida do porto. (...)
Não está terminada ainda a missão do Comissariado da Exposição, mas por menos que tivesse que fazer de ora avante, já se tornou digna dos maiores louvores por todo o seu trabalho e dedicação, que não poderá ser esquecido por este Governo e pela Colónia.”

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

Donativo para Monumento a Alexandre Herculano

Relação nominal das personalidades de Macau que contribuíram para a construção do monumento a Alexandre Herculano (1810-1877) publicada no Boletim Oficial (de Macau) em 1881. Ao todo foram angariadas 102 patacas.
“Joaquim José da Graça, $10; o Leal Senado da Câmara, $10; Manuel Bernardo de Sousa Enes, $5; Eduardo Alfredo Braga de Oliveira, 5; José Alberto Homem da Cunha Corte Real, 4; António Emílio de Almeida Azevedo, 4; João Correia Pais d’Assumpção, 1; António Joaquim Garcia, 1; Lúcio Augusto da Silva, 3; Francisco Augusto Ferreira da Silva, 1; Raimundo José de Quintanilha, 5; Demetrio Cinatti 2 ; António Talone da Costa e Silva, 1; Barão do Cercal, 3; António Joaquim Bastos Júnior, 2; Pedro Inácio do Rio Carvalho, 2; Francisco Tomás de Brito Soares, 1; Amaro Justiniano de Azevedo Gomes, 1; Francisco Bernardino Carvalho, 1; José da Cunha Lima, 1; Malaquias António Pinto, 1; Joaquim da Silva Gomes, 1; Bernardino de Senna Fernandes, $10; Pedro Nolasco da Silva, 1; Eduardo Marques, 1; Câncio Jorge, 1 ; José Bernardo Goulart, 1 ; Evaristo Lopes, 50; Cornélio de Sousa Placé, 30; Clementino Vicente Lopes, 50; Caetano Maria Dias Azedo, 1; Iong Lim, 1; Vicente Saturninho Pereira, 1; Simplício António Tavares, 1; Francisco Pedro Marques, 50; Francisco de Paula Rodrigues, 50; Holokuae, 5; Francisco Xavier, 3; Chon Ec Chiom, 2; Carlos Alberto Feyo Folque, 1; Ricardo de Sousa, 1; Tomás de Aquino Miguéis, 1; Manuel Joaquim dos Santos, 50; Pedro Ricardo da Silva Saturninho, 2; José Maria da Luz, 20; José Manuel Sacoto Galache, 1.
Total, Patacas $102.00. Macau, 1 de Agosto de 1881. 
A soma acima de $102 foi remetida ao exmº. snr. João Maria Galhardo, tesoureiro da comissão executiva, encarregado da erecção de um monumento a Alexandre Herculano, em uma letra à vista de Hongkong & Shanghai Banking Corporation sobre Londres do valor de Libras 18,146. D. C. Pacheco, Presidente do Leal Senado”.

A cerimónia de trasladação dos restos mortais do escritor - morreu há 140 anos - para o Mosteiro dos Jerónimos ocorreu em 1888. A subscrição para a construção do monumento, incentivada, por exemplo, pelo Diário de Notícias, foi feita não só em Portugal mas em todo o então território português. O monumento é o que está no Mosteiro dos Jerónimos e como se pode ver - face ao original em baixo - sofreu alterações em 1939. 

terça-feira, 28 de novembro de 2017

Foto-Legenda: Pousada de Macau e Igreja S. Lourenço (década 1950)

Clicar na imagem para ver em tamanho maior
Foi aqui, no nº 1 da Travessa do Padre Narciso, que ficou famosa a receita de Galinha Africana do Chefe Ângelo
Na mesma época mas vendo-se do lado direito o jardim e parte do Palácio do Governo e ao fundo em cima parte da Igreja de S. Lourenço.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Portugal may have hoped for a 2004 Handover of Macau to China, instead of 1999

Um leitor do blogue Macau Antigo enviou-me um link de uma notícia publicada pelo site Hong Kong Free Press a 27 Nov. 2017 a propósito de novos documentos tornados públicos acerca do processo de transferência de soberania de Macau (que agradeço e a seguir reproduzo). No essencial refere-se ao facto de o Governo de Portugal ter sugerido à China que a transferência de soberania se efectuasse já no século XXI - 2007, por exemplo) e não no século XX como viria a acontecer. Não sendo uma novidade (já aqui o tinha escrito em 2012 e várias pessoas com ligações ao processo tinham-me garantido tais factos), tanto quanto julgo saber, é a primeira vez que são revelados documentos que provam esta pretensão.
A menos de um mês de mais um aniversário do chamado "handover" aqui fica o artigo da autoria de Kris Cheng com elementos da história recente de Macau e da RAEM.
Declassified: Portugal may have hoped for a 2004 Handover of Macau to China, instead of 1999
Donald Tsang, Hong Kong’s ex-chief executive who was deputy secretary of General Duties Branch at the time, mentioned the year in an internal report about his lunch with Barbara Schrage of the US Consulate-General in Hong Kong.
“Schrage said that she was amused by the way the Portuguese went about negotiations with the Chinese. A very short agenda – mainly the Catholic Church, the status of locally born Macanese holding Portuguese passport and 2004 instead of 1997,” he wrote on October 10, 1986.
“Schrage had also heard that the Portuguese, if pushed, would be prepared to admit the entire Macau population, including the non-Portuguese nationals, to Portugal! I did not ask Schrage to reveal her source, but she spoke with conviction.”
David Akers-Jones, the Hong Kong chief secretary at the time, also mentioned the year in a paper on November 5, 1986. “I learned yesterday from a source who had dinner with President [Mário] Soares that Portugal was still standing firm on 2004,” Akers-Jones wrote.
But he noted that the Chinese government wanted the return to be no later than 2000, when the Sino-British Joint Liaison Group would cease to operate: “[China] saying it would be very difficult to explain 2004 to the British when they had been so insistent on 1997.”
The Sino–Portuguese Joint Declaration was signed in April 1987 after four rounds of negotiations starting in late June 1986.
The records are part of a set of Foreign and Commonwealth Office documents declassified in January and April this year. They are available to the public at the National Archives in Kew, London. The 2004 date may have been proposed only in the latter half of 1986, according to the documents.
In a document dated January 6, 1986, a Foreign and Commonwealth Office official cited a China Daily report four days prior, which said a Chinese foreign ministry spokesman described media reports of a Handover of Macau in 2002 or 2004 as “totally groundless.” The spokesman also said any suggestion of Macau returning after 2000 would be unacceptable. A week later, the official was part of a group who visited Octávio Neto Valério, then-Portuguese ambassador to China. Valério said there were reports saying the Handover may occur in 2003, 2004 or 2007 – all linked to historical anniversaries – but such dates had never been advanced by members of the Portuguese government at the time.
Portuguese views
Camões Chi-keung Tam, an expert on Macau’s Handover who covered the events as a journalist and wrote his PhD thesis on the topic, told HKFP that Portugal only raised the possibility of a 2007 Handover, since it would be the 450th anniversary of Portugal renting Macau. Tam, now an assistant professor at the Faculty of Humanities and Arts of the Macau University of Science and Technology, questioned the sources cited by Akers-Jones and Tsang. “From [the 1986 negotiations] to 1987 when the agreement was signed, information from Macau was sealed off… this declassified information may not be valuable, since it is not first hand information,” he said.
He said the US Consulate-General staff members in Hong Kong did not know Cantonese and Portuguese, thus they may have received incorrect information: “Donald Tsang likely cited sources incorrectly, and Akers-Jones may have heard wrongly.” Tam said China hoped to take back Macau by 1997, but the Portuguese refused to return Macau in the same year of Hong Kong’s Handover from Britain. “Portugal said they have never invaded China, they paid an annual rent of 500 taels of silver, they tried to return Macau two times but were not accepted… They would have rather handed Macau back immediately in 1985 when negotiations started, and it scared off the Chinese side,” he said. After the democratic revolution in Portugal in 1974, its government tried to return Macau in 1975 and 1977.
‘Hopeless fantasy’
Meanwhile, a document written by John Boyd, Hong Kong government’s political adviser at the time, also shed light on the role of the Portuguese in the negotiations.
He was having dinner with Sir Roger Lobo, a Hong Kong-Macanese lawmaker, on October 7, 1986. “[Lobo said] They had a hopeless fantasy that they could ‘play the cultural card’ – i.e. that statements or demonstrations of what Portuguese culture had in the past brought to the South China would impress the Chinese. If they persisted in this line they would get two fingers from Peking.”
“Equally, they had a fantasy that they could suddenly maximise the value of Macau to China by installing such infrastructural items as an airport. There was no money for such schemes; and no requirement, given that the Chinese could do their own thing across the border at much lower cost.” “He did not exclude absolutely that the Portuguese would lose patience and leave before the end of the transitional period, when agreed.”

domingo, 26 de novembro de 2017

MSM: o cronista

Excerto de um artigo da autoria de Manuel da Silva Mendes no jornal O Macaense, de 23 de Novembro de 1919. "Os jornais publicados em Macau têm, com efeito, desaparecido quasi todos. Não há colecção nenhuma oficial, e, em mãos particulares, que nos conste, duas há apenas de valor ou importância: uma em Shamim (Cantão) pertencente ao Sr. Inácio Pereira, e outra em Shanghai pertencente ao sr. Alfredo de Sousa. A Abelha da China, que começou em 1821, a Gazeta de Macau em 1824, a Chronica de Macau em 1834, O Verdadeiro Patriota em 1838, a Gazeta de Macao em 1839 e outros jornais ainda, onde estão eles, onde podem hoje ler-se?"
Vem isto a propósito de pretender neste post referir-me, ainda que de forma breve, à faceta de cronista de Manuel da Silva Mendes.
De acordo com a professora Graciete Batalha (num texto de 1979) “os seus artigos sobre Macau, cheios de vida e de interesse, são uma das fontes mais preciosas para o conhecimento do que foi a terra no seu tempo”. Acrescenta ainda que “Silva Mendes não viveu, como parece ter vivido Camilo Pessanha, intelectualmente alheado do meio que o cercava. Mergulhando com uma curiosidade – alerta e apaixonada – no mundo cheio de meandros do foro macaense, nos problemas do ensino e outros de natureza cultural, no estudo da religião, filosofia, arte e tradições chinesas.”
MSM deixou um legado de centenas de textos nas mais diversas publicações e sobre os mais variados temas, a maioria com “críticas contundentes à administração local ou sátiras a personagens de duvidosa santidade.” Textos escritos em jeito de crónica que reflectem “a sua vivacidade de espírito e sentido de humor” e que embora não proporcionassem “uma visão completa da sociedade em que se movimentava”, são autênticas “pinceladas vivas (…) retalhos da vida portuguesa e chinesa”.
Também no final da década de 1970 o padre Manuel Teixeira escreve que “Silva Mendes era jornalista de garra e deixou dispersos pelos periódicos locais centenas de artigos. Eram, em geral, escritos ao correr da pena e focando circunstâncias do tempo, que hoje perderam todo o interesse, se exceptuarmos os referentes à arte e medicina chinesa.” Para António Conceição Júnior “os seus escritos podem complementar o que dele se disse, mas são fundamentalmente, uma matéria extraordinariamente rica para todo aquele que, lendo português, se não quer limitar, em Macau, a ser um transitório pobremente enriquecido”.
A colaboração de MSM com a imprensa macaense (ocorreu também em jornais de Portugal mas fica para um outro post) ocorreu durante praticamente os 30 anos de vida em Macau (1901-1931) e deu origem a centenas de artigos que Luís Gonzaga Gomes (que foi aluno de MSM) teve o cuidado de 'resgatar' e republicar anos mais tarde. Mas MSM não se limitou a ser redactor, também ajudou a fundar alguns jornais...
Na introdução à Nova Colectânea de Artigos de Silva Mendes, editada em 1963, Gonzaga Gomes informa que MSM foi um dos fundadores do jornal “O Progresso” onde colaborou “até à sua partida para Xangai em Abril de 1917, para advogar numa importante causa que corria pela Tribunal Consular Português donde regressou no mês seguinte.” Silva Mendes foi também um dos fundadores do semanário “O Macaense” (1919-1921), propriedade da “Empresa Jornalística Macaense". O primeiro número saiu a 11 de Maio de 1919. Damião Maximiano Rodrigues (1878-1924) era o editor e Carlos Eugénio de Almeida o administrador. Segundo LGG “raro era o número em que não aparecia um editorial que, embora não assinado, se reconhece facilmente como sendo seu, pela peculiaridade do seu estilo e pelo facto da sua persistência em conservar a ortografia antiga (…). Tinha dessas extravagâncias e outras.”
Informações adicionais na "Biografia de Manuel da Silva Mendes 1867-1931"

sábado, 25 de novembro de 2017

Flying Albatross


Em meados da década de 1960 deu-se uma pequena 'revolução' nas habituais carreiras fluviais de ligação entre Macau e Hong Kong (e o resto do mundo) com a inauguração do serviço de hydrofoil (hidroplanadores). Um deles foi o Flying Albatross (imagem abaixo) que entrou ao serviço em Dezembro de 1964.
Num folheto turístico da época pode ler-se:
"This revolutionary type of “commuter” service was inaugurated in 1964. Two companies provide a daily operation, with a total of nine hydrofoils linking Macau and Hong Kong. One company makes 17 round trips daily, by the Flying Albatross and Flying Skimmer, Flying Kingfisher, Flying Phoenix, Flying Swift and Flying Heron. The other company makes eight round trips daily, by the Guia and the Penha, the Coloane operating as a stand-by vessel, and at weekends. Jointly, the two independent companies provide a service at approximately half-hourly intervals throughout the day."
Emissão filatélica de 1986: hydrofoil

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

O dom dom de Macau não é macaísta?

Quando se pede a alguém de Macau, geralmente pessoa de idade, que cante ou recite velhos cantares ou versos de Macau, é quase certo ouvir-se a seguinte quadra no crioulo macaísta:
Dom dom dom dom
Sium capitám,
Cô espada na cinta
Cô rota na mám.
Foi das primeiras que ouvi quando cheguei a Macau, cantada com a música dum antigo naná ou canção de embalar, no qual se incluíam outras quadras ainda bem conhecidas, como:
Ade pidíchua (pato pede chuva)
Sapo pidí vento.
Nhonhonha bunita (meninas bonitas)
Pidí casamento.
Uma coisa que, no entanto, sempre estranhei, desde que comecei a fazer estudos sobre o crioulo de Macau, foi que a primeira destas quadras, aparentemente popular e bem macaísta, com a alusão aos senhores capitães (sium capitám) que andariam pela cidade exibindo perante as meninas casadoiras a sua elegância, de espada à cinta e rota (chibatinha) na mão, não fosse incluída num Cancioneiro Musical Crioulo - Cantilenas macaístas - publicado por J. F. Marques Pereira em Ta-Ssi-Yang-Kuo (II, 703).
Desse Cancioneiro consta uma longa série de quadras, entre as quais a acima citada, que Marques Pereira obteve, conforme suas próprias palavras, "directamente da boca de pessoa sem educação literária", o que lhes confere genuinidade, pelos fins do século passado ou princípios deste. Mas o certo é que não inclui o conhecido e popular dom dom.
Recentemente, tive o prazer de falar em Lisboa com o Sr. Dr. Leopoldo Danilo Barreiros que muito se interessa pelos assuntos de Macau e, de modo especial, pelo português do Oriente, tendo coligido e publicado na revista "Renascimento" (Macau, 1943-45), pois que ao tempo aqui vivia, um bom número de textos em crioulo. Entre eles o referido naná, que já não coincidia exactamente com o de Marques Pereira, e que incluía desta vez a quadra em questão. Mas, compreensivelmente, numa versão mais moderna:
Dom, dom, dom, dom
Sinhô capitão
Espada na cinta
Rota na mão.
Dessa conversa em Lisboa resultou este artigo, pois que o Dr. Danilo Barreiros me deu, a respeito da quadra "de Macau", uma informação muito curiosa e que me parece merecer divulgação: segundo um brasileiro que foi há anos professor de música de seu filho, o senhor capitão cantava-se também no Brasil, apenas com ligeiras diferenças. Até a música era semelhante! A confirmar esta informação, facultou-me gentilmente a fotocópia dum documento que possui - a primeira página do jornal infantil brasileiro "Pernalonga" (n° 8, Novembro de 1961), que apresenta o desenho do famoso coelho de Walt Disney com a sua cenoura numa bolsa à cinta, cavalgando um cavalo de pau, e tendo ao lado uma quadra:
Bão, balalão!
Senhor capitão!
Cenoura na cinta!
E rédeas na mão! 
É evidente que os termos cenoura e rédeas são adaptações ao desenho e talvez a uma correspondente história para crianças. Todavia a quadra de Macau é imediatamente reconhecível. Tentando investigar um pouco mais a curiosa coincidência (e digo um pouco mais porque não tenho, de momento, dados para ir muito além), perguntei em carta a pessoa de minha família, há muitos anos radicada no Rio de Janeiro, se acaso ouvira cantar no Brasil algo de semelhante. Respondeu-me imediatamente a pessoa solicitada que se canta aí popularmente a quadra em questão em duas cantigas diferentes, cuja pronúncia não será a da escrita, mas a brasileira:
1 - Bão balalão,
Senhor capitão!
Espada na cinta,
Ginete na mão.
Em terras distantes
Morreu seu irmão
Cozido e assado
No seu caldeirão. 
2 - Bão balalão
Senhor capitão!
Espada na cinta,
Ginete na mão. 
Aí vai a senhora abadessa
Sentada na sua cadeira,
Capitão não estava em casa,
Atiremos com ela no chão! (1)
Reparando nestas duas cantigas, vemos que a primeira, ao interesse da quadra semelhante à de Macau apenas acrescenta o que parece ser uma reminiscência da história da carochinha: Cozido e assado / No seu caldeirão. A segunda, com os versos Aí vai a senhora abadessa / Sentada na sua cadeira, dá ideia de que remonta à época em que as pessoas abastadas se faziam transportar de "cadeirinha". Esta referência, conjugada com o ginete do Senhor capitão, sendo ginete o nome antigo do "bastão dos capitães", segundo o Dicionário de Morais e Silva, leva-nos a atribuir à quadra uma relativa antiguidade. A aceitar-se esta suposição, poderá inferir-se que a cantiga terá sido criada ou importada pelo Brasil por alturas do século passado.
Quanto à quadra "de Macau", tudo são também hipóteses, mas parece que não devia ser cantada ainda na data da publicação do referido Cancioneiro Musical Crioulo, pois que não foi citada por Marques Pereira, o que situa a sua criação ou importação na primeira década do século actual.
Como explicar a coincidência de duas quadras em terras tão distantes como o Brasil e Macau? Não sendo provável que a cantiga transitasse do Brasil a Macau nem vice-versa, só poderemos supor, creio, que irradiou de Portugal nas duas direcções opostas. Seria interessante saber se teria sido ou é cantada ainda noutros territórios de língua portuguesa.
De qualquer modo, julgo poder afirmar-se com segurança que a quadra de Macau não é criação do povo macaense. Mas, como tantas vezes tem acontecido, este povo, ao "adoptá-la", deu-lhe um cunho de paternidade local, não só pela pronúncia do crioulo em que passou a cantá-la (sium 'senhor', capitám, mám), como pelos termos aqui introduzidos, dom dom e rota.
Dom-dom, no papiá cristão de Malaca, significa 'levar ao colo' (um bebé, por exemplo) e em Macau foi usado no naná, em vez do bão balalão do Brasil, certamente no sentido de 'embalar'. A rota, espécie de cana fina ou junco, chamada em Portugal junco da índia, mas sendo a palavra de origem malaia (rotan) e muito divulgada no português do Oriente, seria em Macau o pingalim ou chibatinha dos oficiais portugueses, (2) substituindo o termo ginete . menos compreensível da quadra original. Esta parece ser uma prova de como, apesar do conhecido espírito criativo brasileiro, o de Macau foi neste ponto mais longe, adaptando e macaizando, aliás como em tantos outros casos, um elemento folclórico vindo do exterior.
Notas:
(1) As cantigas brasileiras apresentam também pequenas variantes, mas não são significativas, como Bom balalão e Bam balalão, sinete por ginete, senhora madeira por senhora abadessa e atirarmos com ela no chão em vez de atiremos.
(2) A espada e a chibata ou pequeno bastão terão sido usados em tempos mais antigos por todos os cavalheiros portugueses de Macau, "tanto reinóis como seus descendentes", "como emblema de prestígio que não podiam dispensar" (Ana Maria Amaro, Filhos da terra, Macau 1988, p. 80). Isso mesmo se confirma no desenho de Um estrangeiro (português) do séc. XVlll, em Ou-Mun Kei Lèok, trad. de Luís G. Gomes, Macau 1950, p. 133. Contudo, na data da introdução da quadra em Macau, já a referência à espada, à cinta e à rota na mão seria aplicável, suponho, apenas aos oficiais do exército português.
Graciete Batalha in Revista Cultura, nº 7/8, Macau, 1988