segunda-feira, 26 de junho de 2017

Plantas Urbanas e Desenhos Arquitectónicos

Projecto de renovação e ampliação do Teatro Cheng Peng (Cidade de Ouro) - nº 13 da Rua Almirante Sérgio - da autoria do arquitecto Aureliano Guterres Jorge, em 1949.
Esta é uma das 60 plantas urbanas e desenhos arquitectónicos que podem ser vistas na mostra “Macau Ilustrado: Exposição de Plantas Urbano-Arquitectónicas da Colecção do Arquivo de Macau” patente ao público em Macau até ao final deste mês nas instalações do Arquivo de Macau (Av. Conselheiro Ferreira de Almeida), instituição detentora dos documentos e organizadora da exposição.
Projecto das obras para os portos de Macau e Ilhas (ca.1920)
Planta desenhada por J.M. Cassuso para um mercado municipal em 1904

domingo, 25 de junho de 2017

Plan Talks on Macao's Future

A 16 de Junho de 1986 a agência de notícias UPI - United Press International dava conta, a partir de Pequim, do anúncio feito pelos governos de Portugal e da China sobre o início das negociações tendo em vista a transferência de soberania de Macau. O processo iniciara-se antes, num encontro entre o Presidente da República Ramalho Eanes e o Director do Conselho Consultor do Partido Comunista Central Chines, Deng Xiaoping, em 1985, em Pequim. Ambas as partes, portuguesa e chinesa, atingiram consenso, após negociação, sobre a questão de Macau. Outra fase importante deste processo deu-se em Abril de 1987 com a Declaração Conjunta. A data de transferência de soberania viria a ser definida como 20 de Dezembro de 1999...
China, Portugal Plan Talks on Macao's Future

Peking - China and Portugal announced today that they will start talks in Peking on June 30 aimed at ending more than four centuries of Portuguese rule over the tiny gambling mecca of Macao. Peking's negotiating team will be led by Vice Foreign Minister Zhou Nan, while Portuguese Ambassador to China Ruy Barbosa Medina will represent Lisbon.
Zhou also headed the Chinese side in lengthy negotiations with Britain two years ago on the future of Hong Kong, which will revert to communist rule in 1997. Portugal has governed the six-square-mile territory of Macao since 1557, making it the oldest Western settlement in Asia. The sleepy enclave across the Pearl River estuary from Hong Kong is known for its gambling casinos and dog and horse racing tracks, which contribute about one-third of the territory's annual revenues. It has a population of about 400,000 people, 98% of them Chinese. Peking has declared its intention to follow the same "one-country, two-systems" formula used in the 1984 Sino-British agreement on Hong Kong. Under that accord, hammered out during two years of tortuous negotiations, Hong Kong will retain its basic freedoms and capitalist life style for 50 years after reverting to communist rule in 1997.
Peking-based diplomats, noting that Lisbon has been trying to give Macao back to China since 1974, said the Sino-Portuguese talks should proceed quickly and much more smoothly than the Hong Kong negotiations.

sábado, 24 de junho de 2017

O Dia da Cidade e o ataque holandês em 1622

Na edição de 28.6.1862 do Boletim do Governo de Macau foi publicado um texto sobre o ataque holandês a Macau em 1622...
"No dia 22 de junho de 1622 aportaram á Rada de Macau dezenove navios hollandezes, resolvidos a apoderarem-se da cidade, como já tinham feito a outras tantas colonias de Portugal nesse tempo de desgraças, devido a circumstancias que não convém avivar hoje. Estavam na Rada tres navios inglezes que iam para Cantão negociar; a estes pediram os hollandezes coadjuvação, que lhes foi promettida, dando-lhes a saque a cidade, o que o inimigo não acceitou, por ser essa sua mira principal, e pela couvicção que possuia, fiado na sua grande armada e na nossa pequena guarnição, de ter certa a victoria. Na tarde de 23, rompeu a esquadra do inimigo o fogo sobre o forte de S. Francisco, — que então só possuia a bateria de cima, e não as duas que boje lhe observamos — a fim de irem assim tomando os navios posições favoráveis, encostando-se o possível á terra, para melhor desembarcarem a força destinada a atacar a cidade, e não terem embaraços pelo fogo da nossa artharia dos fortes de S. Francisco, e Bom-Porto, hoje conhecido pelo BomParto. Aconteceu nesta tarde que, ou pelos nossos tiros, ou por outro incidente, que a historia nos não esclarece convenientemente, um dos navios hollandezes se abrisse de tal forma, que foi a pique sobre as amarras. Grande, porém, era a consterna- ção da cidade, por haver só nella oitenta portuguezes capazes de pegarem em armas, além dos seus moços ou escravos, mas ainda assim sem capitão que os guiasse, pois o governador Carrasco tinhase retirado para Goa sem que houvesse sido substituído, e o capitão-mór da viagem do Japão também se achava ausente, estando d'este modo o governo da cidade entregue ao Senado.
Raiou, finalmente, o dia 24 de junho, destinado para que Macau alcançasse a famosa victoria, que tão honroso é recordar áquelles que se prezam de ter nascido portuguezes. Os navios do inimigo, que desde a vespera tomaram posições convenientes, acercando-se da terra quanto possível era, começaram o desembarque na praia de Cacilhas, e em poucas horas, servindo-se de mais de trinta lanchas, escaleres e catraios, favorecidos pelo fogo dos seus navios, saltaram em terra oitocentos homens, capitaneados por Ivornelius Reyerzoon, que commandava a frota. O inimigo, chegando a terra, deitou por barlavento fogo a um barril de polvora molhada, para, a coberto do fumo que se desenvolveu, fazer o desembarque com mais segurança.
Observando isto Antonio Cavallinho, que morava numa casa de campo, num outeiro fronteiro á fortaleza de S. Paulo do Monte, sahiu com cinco portuguezes e seus moços para lhes impedir o desembarque — tal era o seu valor; reconhecendo, porém, a impossibilidade de fazer frente a tão poderoso inimigo, occultou-se com a sua gente entre as enormes pedras que guarneciam aquelle outeiro. Os hollandezes avançaram em pé de guerra até o plano por baixo da Guia, onde fizeram alto, por causa de dois tiros que sobre elles foram disparados da fortaleza do Monte, com uma bombarda, que á pressa,se assestára por aquelle lado, sendo estes tiros feitos pelos padres da Companhia de Jesus, que áquella cidadella se tinham recolhido, abandonando o seu convento de S. Paulo ás religiosas de Santa Clara, senhoras è filhas dos moradores da cid) de, que para maior segurança se tinham ido abrigar narquelle templo. Estes tiros foram dirigidos com tanto acerto, que um d'elles foi insultar a reserva, onde vinha a polvora de sobresalente, e breve houve lima explosão nalguns barris, matando bastantes hollandezes. Precisavam os invasores, para entrar na cidade, de passar ao lado de um espesso bambual, que lhes ficava á sua direita, e perto da porta do campo, bambual de que hoje nãò restam vestígios, porque sendo destruído, em 1791, por Filippe Lourenço de Mattos, foi depois amanhado em horta, a qual pertenceu primeiro a D. Rita Ragmond, e passando em seguida por novas tranformações, e novos donos, está hoje aquelle terreno cheio de casas chinas, propriedade de Francisco Volong, china naturalizado portuguez. Tendo, pois, o inimigo de passar ao lado d'este bambual, temeu alguma emboscada pelo facto de não haver pessoa alguma a estar soffréndo não só os tiros do Monte, como também descargas successivas do lado da Guia; assim mudou de plano e diligenciou subir ao alto do outeiro, sobre o qual já existia uma ermida, mas esta subida lhes foi embaraçada não só pelo fogo com que Cavallinho os atacava, como também pelo que do alto da ermida lhes fazia Rodrigo Ferreira, que naouelle logar se achava com oito português, vinte filhos do paiz e seus creados.
Dia do Padroeiro de Macau, São João Baptista (24 de Junho), foi comemorado como Dia da Cidade desde 1622 – quando foi instituído pelo Senado para lembrar a vitória sobre os holandeses – até 1999; actualmente resta a memória, uma placa toponímica e o monumento da Vitória
Cessando o fogo nos navios hollandezes e reconhecendo os capitães que commandavam os fortes de S. Francisco e Bom-Parto, que o inimigo desembarcava, e vinha por terra atacar a cidade, enviaram a toda a pressa João Soares Vivas com cincoenta mosqueteiros a defender a entrada, chegando este soccorro ao campo no momento em que o inimigo tentava tomar o outeiro da Guia; uniu-se a este auxilio Lopes Sarmento de Carvalho, encarregado da porta da cidade, e com tal furor acommetteram os hollandezes, que os puzeram em confusão, e ainda que o chefe d'estes soldados tentasse fazer frente aos nossos, essa ousadia lhe custou a morte, sendo o inimigo carregado até Cacilhas.
A morte de Kornelius causou tal desordem entre os hollandezes, que estes só procuraram fugir, deixando pelo caminho, armas, correames, tambores e bagagens, e apezar de terem ficado em Cacilhas duas companhia! de reserva, estas se apoderaram do mesmo medo e terror de que os seus camaradas vinham possuídos, e sem pensarem na defeza, trataram apenas de salvar a vida, chegando muitos a atirarem-se ao mar, para a nado se escaparem, tumulto este de que resultou virar-se um dos escaleres e morrerem bastantes afogados. A' sombra dos portuguezes, corria desenfreado o povo sobre ,os fugitivos, sem lhes dar quartel, e conla-se que era tal o furor, que até um cafre matou muitos dos inimigos com um grande espeto, ainda què outros affirmam ter sido com uma alabarda, apanhada no campo. Os hollandezes perderam entre mortos e prisioneiros, quinhentos homens, oito bandeiras, uma peça e muitas armas e bagagens. Estas armas existiram, até irem para Gôa os jesuítas, e o seu convento; depois ignora-se o destino que tiveram. Do nosso lado perdemos quatro portuguezes, dois hespanhoes e alguns escravos, tendo vinte feridos.
A Hollanda tomou tal horror a Macau, e tanto medo ao nosso ferro, que apezar de se ter apoderado de quasi todo o sul e de estar Gôa bem distante, d'onde só podiam vir soccorros mais promptos, não voltou a investila, ainda que alguém ha que affirma ter sido enviada outra esquadra a atacar a cidade, porém que apanhando um tufão ao entrar nos mares da China, todos os navios que a compunham se perderam. Às maravilhas praticadas por este punhado de homens, principalmente aquelles que nunca abandonaram o seu entrincheiramento, são altamente reconhecidas.
Esta victoria das nossas armas deu logar a um voto feito pelos moradores de então, que prometteram ir todos os annos, com o corpo do Senado, á Sé Cathedral render graças a Deus na vespera de S. João, de cujo voto existe termo no archivo da Camara. Todos os annos se realisa a procissão na tarde de 23 e a festa solemne em 24, na Sé, O vice-rei de Cantão, assim que soube d'esta victoria, dizem que mandára quatrocentos picos de arroz para os moços que tanto ajudaram a defeza da cidade, os quaes já estavam forros, porqae seus amos antes da peleja lhes tinham dado alforria.
Monumento da Vitória: década 1910/20

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Club Lusitano de Hong Kong: 150 anos

Club Lusitano: 1866-2016
Já muito foi dito e escrito sobre o Clube Lusitano de Hong Kong. No entanto não gostaria que passasse despercebido o 150º aniversário desta instituição - em 2016 - que cala fundo no coração dos macaenses e tem uma marca indelével na história de Hong Kong. Por isso mesmo resolvi fazê-lo com recurso a uma breve resenha histórica - que não esgota o tema - juntamente com algumas curiosidades e várias imagens.
Hong Kong ‘nasce’ da derrota chinesa na chamada primeira guerra do ópio (1839-1842) sendo a ilha uma das concessões feitas pela China ao império britânico por via da derrota no conflito. A primeira grande vaga de emigração macaense para o outro lado do Delta do Rio das Pérolas começa por esta altura acentuando-se após o assassinato do governador Ferreira do Amaral em 1849. Serão pois os portugueses/macaenses oriundos de Macau os primeiros habitantes do território a uma distância de pouco mais de 60 quilómetros e cedo forma uma das comunidades estrangeiras mais importantes. 
Fundado a 17 de Dezembro de 1866, o Clube Lusitano nasceu da vontade de um grupo de portugueses e macaenses que trabalhavam para a administração pública de Hong Kong, então colónia britânica forjada após a Guerra do ópio, vizinha de Macau, de onde eram oriundos. Desse grupo, tiveram destacaram-se as iniciativas de J. A. Barretto e Delfino Noronha de quem partiu a ideia de criar uma agremiação que representasse a comunidade. Na altura já estavam em actividade outras duas associações com fins semelhantes: o Clube Venatório e o Club de Recreio. A ideia de criar uma nova colectividade seria apadrinhada em Macau pelo governador Coelho do Amaral, que no dia 17 de Dezembro de 1866 o inaugura na companhia de um representante do seu homólogo de Hong Kong.
A 1 de Janeiro de 1866 no Boletim Oficial do Governo de Macau podia ler-se: "No dia 26 de dezembro ultimo foi S Exa o Governador a Hong kong presidir á festa solemne da collocação da primeira pedra do edificio que ali se vae erigir para um club portuguez com o titulo de Club Lusitano. Sua Exa o governador foi de Macau acompanhado pelo seu estado maior e foi recebido em Hongkong pelos cavalheiros da commissão directora do referido club estando no caes para o mesmo fim o general das forças britannicas em Hongkong e uma guarda de honra de infantaria salvando se ao desembarque de S Exa com a salva que lhe competia. A festa a que assistiram todos os principaes funcionários ingle zes e a maioria dos portuguezes residentes na colónia correu sumptuosa e brilhante. S Exa o governador partiu de Hongkong penhorado por tantas attenções de consideração como as que recebeu na curta demora que teve n aquella cidade. Depois da ceremonia que correu com as devidas formalidades serviu se um esplendido lunch no qual se fizeram vários brindes todos com enthusiasmo recebidos. Os primeiros foram a SM a Rainha Victoria e a SM El Rei o sr D Luiz Damos sinceros parabéns aos sócios do novo club pelo bem que correu esta festa de muito alcance e pela dignidade com que se houveram em acto tão solemne."
Até à década de 1930 o Club Lusitano floresceu tendo as actividades praticamente terminado em virtude da invasão japonesa em Dezembro de 1941. A segunda guerra mundial iria provocar um êxodo da comunidade, sobretudo para Macau. Regressariam no final da guerra mas já não em tão grande número. Uma outra vaga migratória sucedeu já na década de 1960 durante a revolução cultura chinesa tendo muitos partido para a Austrália, Brasil, Portugal, EUA e Canadá. Já em 1997, com a transferência de soberania de Hong Kong para a China, e em 1999, com a transferência de soberania de Macau para a China, muitos macaenses voltariam a partir para a diáspora. Actualmente ainda existem vários milhares de cidadãos com nacionalidade portuguesa a viver em Hong Kong, a maioria com origens em Macau.  

Camões em 1880
Em 1880 no tricentenário de Camões foi 'inaugurada' a Gruta de Camões em Macau e em Honk Kong o Club Lusitano assinalou a efeméride com uma publicação especial. Excerto: “À Exma Commissao Promotora da festa do tricentenário de Luiz de Camões no Club Lusitano em Hong Kong. J. J. da Silva e Souza signed the first text explaining that Mr. Lourenço Marques has, in it's garden, the cave where Camões, literary and legendary figure of portuguese culture and history, used to go when in need of inspiration and solitude. The monument that was erected in the cave was launched in order to celebrate the author of the portuguese epic Lusíadas and is considered has the first monument to Camões (built in 1840). The owner of the garden and the cave had assembled an album with literary contributions from several authors and, for this number, selected some poems by Mary Midleton, dr. Bowring, Francisco Bordalo, José Baptista de Miranda e Lima, J. F. Davis. D. Hiriberto Garcias de Quevedo, Manoel de Castro Sampaio, Fonseca, D. Sinibaldo de Mas, Sibasinda, Pedro Feliciano d'Oliveira Figueiredo, Visconde de Almeida Garret, Antónjio Luiz de Carvalho and Jules Zanole.”
Personalidades
Ao longo de 150 anos várias personalidades assumiram a direcção do Club Lusitano (só há registos a partir de 1892). Entre eles, destaca-se Arnaldo Oliveira Sales, que presidiu durante mais de 30 anos (eleito a primeira vez em 1967), além dos cargos acumulados no 'Urban Coucil' e Comité Olímpico do território. Francisco José Vicente Jorge e J. A. dos Remédios foram outros dos presidentes marcantes no final do século XIX e início do século XX. Isto, claro está, para além dos fundadores J. A. Barreto e Delfino Noronha.

Sócios
Para além dos negócios que criaram por conta própria, muitos dos macaenses acabaram por trabalhar na função pública e em empresas privadas como a Jardine Mathison ou o Hong Kong and Shanghai Banking Corporation, que num determinado momento chegou a ter mais de 700 funcionários macaenses/portugueses. Muitos foram sócios do Clube Lusitano.


Almoçar sem pagar
Durante várias décadas, era promovida, no dia 10 de Junho, Dia de Portugal, uma corrida de cavalos no Hong Kong Jockey Club patrocinda pelo Club Lusitano. No 27º andar do Lusitano Club Building está à disposição dos sócios um “Salão Nobre” denominado “Salão Luís de Camões” para realização de actividades culturais e recreativas; no 24º piso os associados têm acesso a uma sala onde podem organizar almoços e jantares em ocasiões especiais. Durante muitos anos todos dos dias os sócios podiam almoçar no clube sem pagar.
Edifício sede
A actual e imponente sede do Club Lusitano é o testemunho visível da importância da instituição na história de Hong Kong. Localizado no distrito financeiro da 'central', tem vista para a casa do governador (hoje do chefe do Executivo) e Banco da China, entre outros.
A primeira sede do Club Lusitano funcionou entre 1866 e 1920 num edifício de três pisos na Shelley/Shelly Street onde antes estivera o Cosmopolitan Hotel. No final do século XIX a direcção decide procurar um espaço mais central e acaba por comprar um terreno, na Ice House Street, a um dos seus membros, A.M. L. Soares, em 1892. As dificuldades económicas e a primeira guerra mundial iriam atrasar o início da construção da nova sede que só teria início final de 1920, no 54º aniversário do Lusitano. Com a presença dos governadores de Hong Kong e de Macau, Reginald Stubbs e Capitão-Tenente Henrique Monteiro Correia da Silva, no dia 7 de Dezembro de 1920, foi lançada a pedra fundamental para a construção da nova sede. Numa edição da época do jornal O Liberal, pode ler-se: “(...) by 3:45pm there was already a large crowd of people who had gathered early to choose a good place for watching the ceremony which had been set to start at 4:00pm. In effect, a few minutes later, their Excellencies (…) arrived (...) and after their speeches the foundation stone was laid in the formal style that could be expected of his Excellençy with the trowel and hammer in his hands (...)”
Em 1964 o edifício da Ice House Street foi demolido e no seu lugar seria construído um novo edifício de 12 andares com projecto de Alfredo Álvares. Enquanto as obras decorrerem o clube teve instalações provisórias mudando-se para a nova sede em 1967. O Lusitano ocupa apenas 5 pisos fazendo render os restantes com recurso ao arrendamento do espaço a mais importante fonte de receita.
Ao fim de quase 20 anos o edifício seria demolido. Em 1996 o arquitecto Gustavo da Roza ficaria responsável pela nova construção que passa a ter um total de 27 andares onde se destaca no topo a Cruz de Cristo, símbolo da instituição.

Desporto
Como era típico destas instituições as actividades desportivas foram uma das imagens de marca do Lusitano: desde o bilhar ao futebol passando pelo hóquei em campo, entre outras modalidades.

Regras rígidas
Apesar do emblema original representar uma mulher num acto de protecção a duas crianças, só mais de cem anos passados sobre a criação do Lusitano, já no início do século 21, é que desapareceu uma das “regras de ouro” do clube que interditava o acesso de mulheres a boa parte das suas instalações. O mesmo aconteceu em relação a pessoas de outras nacionalidades que não a portuguesa. Outros dos aspectos em que a rigidez da instituição se destacava era na exigência ao nível dos códigos de conduta e apresentação, o chamado dress code.


Os voluntários
Um dos momentos mais nobres do Lusitano foi a sua transformação em sede das companhias portuguesas de Voluntários, perante a ameaça de invasão japonesa de Hong Kong no final da década de 1930. Quando a invasão se concretizou no dia de Natal de 1941 o clube transformou-se em centro de acolhimento de refugiados portugueses, antes da sua evacuação para Macau, um dos raros locais na Ásia que escapou aos movimentos do exército nipónico.

Referências
Num anuário de 1912 pode ler-se: “This Club, the membership of which is confined to the Portuguese, was founded some forty years ago, and is consequently one of the oldest social institutions in the Colony. A limited number of debentures ($75 each) are held by the members, who have to pay an entrance fee of $5, and a monthly subscription of $3. The Club passed through various vicissitudes, but now, largely owing to the efforts of Mr. F. J. V. Jorge and other friends and supporters of the institution, it is in a sound condition. The premises in Shelley Street were specially erected to serve the purposes of a club, and are, therefore, very conveniently arranged. The billiard room contains four tables, and the library, the "Bibliotheca Lusitana," stocked with some ten thousand volumes, chiefly Portuguese literature, is one of the most extensive in the Far East. A spacious ballroom is often used for the presentation of amateur theatricals, for which the Club members have gained quite a high reputation, and there are also several rooms for residential purposes. Mr. F. J. V. Jorge is president of the Club, which is managed by a committee of six directors and a salaried secretary.”

PS: utilize o motor de pesquisa do blogue para ler outros posts sobre a história do Clube Lusitano de Hong Kong. Este artigo foi ainda publicado na edição de junho de 2017 da publicação da ADM, A Voz.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

A 1967 Escapade in Macau

Hugh Davies foi um diplomata britânico (reformou-se em 1999) que viveu de perto as consequências da 'revolução cultural' chinesa em Hong Kong e Macau na segunda metade da década de 1960. 
Quatro décadas passadas sobre esses acontecimentos, em 2007, Davies escreveu um artigo - "An Undiplomatic Foray: a 1967 escapade in Macau" - onde relata esses dias 'quentes' (ver outro post) que viveu de perto numa viagem 'especial' ao território onde chegou como turista e ficou hospedado no hotel Caravela (demolido na década de 1970). 
A fotografia acima, onde se pode ver o hotel, a partir da zona da "meia-laranja", não surge no artigo publicado no Journal of the Royal Asiatic Society Hong Kong Branch - Vol. 47 (2007), pp. 115-126 de que apresento alguns excertos.

(...) This short account records a minor diplomatic happening in Macau in which I was involved in 1967, as Hong Kong endured some of its most challenging times in the shadow of the Cultural Revolution then wreaking havoc on the mainland. Macau for me already held a special place in my past. As a young man trying to grasp the history of British involvement on the China Coast, one of the books that had most captured my imagination was Maurice Collis’s Foreign Mud, telling the story of the origins of the Opium Wars. Macau had played a central role in that period. (...) 
In the 1960s, as a young diplomat, I was studying Chinese at the language school attached to the University of Hong Kong. To escape the rigorous rotelearning of long lists of Chinese characters set by my teachers, I had already visited Macau on more than one occasion. At that time the town showed barely any alteration over the previous 150 years. George Chinnery would have easily recognised all the main features and would have found the back streets and alleyways surrounding the ancient façade of the Church of Sao Paulo almost as he had known them in his day. Undoubtedly, however, my most memorable visit was in the autumn of 1967. The Cultural Revolution in China was in full swing. By late 1966 the Red Guards and pro-Communist zealots had effectively assumed power in Macau, at the expense of an enfeebled Portuguese administration powerless to resist. It was at this time that Portugal is said to have told the Chinese government that they were unwilling to continue as the administering power if the Red Guards were not called off. An uneasy compromise was apparently reached, and Macau’s colonial status was maintained. It has always been assumed that those still capable of rational decisions, in a Peking then gone mad with Cultural Revolutionary fervour, saw the danger of taking over Macau in such circumstances. Zhou Enlai, the consummate international diplomat, was the only one capable of bringing some sense to the situation. The obvious fear was that any precipitate action in Macau would provoke an immediate panic in Hong Kong that the same fate awaited the British colony and, with the Chinese economy crumbling around them, the last thing that men such as Zhou Enlai wanted was the loss of all the financial and other benefits accruing to China from Hong Kong. So, while Portugal was humiliated in that period, the trappings of colonial administration were preserved. The Governor remained, and all the senior civil service posts were still kept for Portuguese. The police remained predominantly Portuguese-officered and the junior jobs were largely held by Macanese. Superficially all was as it had been. But the influence of the local Chinese left-wing leaders was now paramount. (...)
O consulado britânico em Macau no ano de 1967. Imagens do artigo
In Macau at that time, Britain still retained a Consulate. The unfortunate Consul, a man no longer in the prime of life, became a soft target for the revenge of the Red Guards. By late May they had paraded daily past his office and residence and made increasingly aggressive demands. This culminated in obliging him to stand for hours outside his office in the heat of the midday sun while their adherents streamed past and screamed abuse. They attacked his office and his residence, both being attractive white-stuccoed, villa-style buildings on the banyan-tree-lined Praya Grande fcing Macau’s outer harbour. Both houses were plastered with Da Zi Bao (Big Character Posters), and besmirched with painted slogans in Chinese and English. ‘Down with British Imperialism’! they screamed. ‘Long live the Great Proletarian Cultural Revolution’, ‘Death to all Running Dogs’, and other encouraging suggestions. (...)
At the ferry terminal, a smartly uniformed young policeman took us under his wing. He welcomed us and confirmed the arrangements. We were booked into the Caravela Hotel on the Praya Grande, and he had tickets for all three of us for the ‘Lovely Paris’ show in the floating casino on the far side of Macau that night. He would pick us up from the Caravela in time for the show, where we could have our dinner too. Emrys and I took a taxi to the Caravela. Sadly, this lovely little hotel no longer exists, a victim of the rush to ruin and rebuild the best of Macau’s architecture in the 1980s and 90s. It really was a jewel of a building. It stood alone in its own neat garden, no doubt for long the residence of some wealthy merchant, grown rich on the pickings of the China trade in the 18th century. It was an exquisite example of the best Portuguese domestic architecture, painted an almost shocking pink outside, with all its decorative lace-like eaves and window recesses picked out in white, and a roof of traditional Mediterranean tiles. Inside it was just as attractive, with a fine mahogany staircase sweeping down into the central hallway and a series of elegantlyfurnished bedrooms around an open balustrade upstairs. It was a privilege to stay there. After checking in, we decided to go out and explore the town. The first thing we saw, from our taxi window, although we determinedly showed no interest in it, was the British Consulate, which stood nearby, absolutely covered in its demeaning graffiti of Red Guard slogans. We made for one of the main hotels for lunch and were gratified to note that one long table was packed end to end with extremely attractive young ladies enjoying their own lunch and smiling demurely in our direction between delicate mouthfuls. Macau was already living up to its reputation. Unknown to us then, we were to encounter them later. Aftet lunch we headed into the centre of town, to do the tourist bit. So we wandered around kr a couple of hours, taldng in some of the usual sights, including the old parts around the famous façade of the Sao Paolo Church. (...)
As we wended our way back along the Praya Grande, we again passed the Consulate and the Consul’s house. Approaching that area, still on guard against the possibility that our presence as representatives of British imperialism might have been detected, we came on a stretch of road under repair. It must have been a considerable excavation, because as we came abreast of it, one of the workers, looking up from his digging, suddenly grinned and held aloft in our direction a piece of dynamite. He brandished it in mock threatening mode, smiling broadly all the while, gold teeth flashing. (...)
For me, that storm-tossed night on the roof of Her Majesty’s Consulate in Macau in 1967 had a particular poignancy. I have often told friends of the time that I helped to haul down the flag on a British outpost in the East.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Passeios de riquexó

As três imagens testemunham uma das imagens de marca de Macau na década de 1960, os riquexós, meio de transporte utilizado para os passeios de turistas mas também para os habitantes locais se deslocarem em viagens curtas e até mesmo para irem às compras.
Este meio de transporte tem uma história curiosa. Na época destas imagens - postais ilustrados - chegaram a existir cerca de mil entrando em declínio com a proliferação dos automóveis (táxis). Hoje subsistem alguns exemplares utilizados sobretudo por turistas.

1ª imagem: frente ao Palácio do Governo vendo-se ao fundo o edifício Rainha d. Leonor.
2ª imagem: na rotunda Ferreira do Amaral, como mesmo edifício ao fundo e o Liceu
3ª imagem: junto ao Jardim de S. Francisco com o Pavilhão Octogonal (biblioteca) ao fundo




domingo, 18 de junho de 2017

Traços da presença feminina em Macau

Excerto do artigo de 2006 da autoria de Leonor de Seabra,  pesquisadora do Research Centre of Luso-Asian Studies, Universidade de Macau, Macau.

(...) É nos relatos dos viajantes, principalmente nos dos viajantes estrangeiros, que chegaram a Macau entre os séculos XVI e XIX, e, ainda, nas cartas dos missionários, que se fixaram naquela cidade e dali partiam para as Missões do Oriente, que se encontram referências às mulheres de Macau, embora numa perspectiva eurocentrista, a maior parte das vezes.. Só assim se poderá ficar a conhecer alguma coisa acerca dessas mulheres anónimas, que teriam acompanhado os Portugueses, quando estes se estabeleceram em Macau.
De acordo com as fontes históricas, nos primeiros tempos do estabelecimento dos Portugueses em Macau, os homens tinham ali, na sua maioria, residência temporária. Em 1563, todavia, o Padre Francisco de Sousa, ao descrever uma procissão na povoação de Macau, diz que “estavam as meninas pelas janelas com grinaldas nas cabeças e salvas de prata nas mãos cheias de rosas e redomas de água rosada que lançavam por cima do pálio e da gente que passava”, tal como sucedia, pela mesma altura, em Goa e noutras praças do Oriente. Conta ainda que, nesta mesma data, “casaram-se algumas órfãs e muitos cristãos da terra que de largo tempo viviam em pecado. Embarcaram-se para a Índia mais de 450 escravas de preço e na última nau que partiu para Malaca se embarcaram ainda duzentas que eram as mais perigosas e mais difíceis de se lançarem fora”.
Este testemunho parece confirmar que as mulheres que acompanhavam os primeiros Portugueses, para a China, eram escravas compradas nos mercados do Oriente, escravas que os acompanhavam também nas embarcações, à maneira tradicional da navegação comercial no Oriente; e as órfãs, a que o Pe. Francisco de Sousa se refere, deviam ser as filhas dos Portugueses, euro-asiáticas, que viviam em regime de concubinato.
Segundo o Pe. Gabriel de Matos, uma das coisas que escandalizavam os mandarins era verem os Portugueses “cativar chinesas, comprando-as ou vendendo-as para fora da terra (...). Saíam por vezes (...) para outros reinos embarcações, carregadas de meninos e meninas”.
Em 1617, o aitao de Cantão fez publicar um decreto do imperador Wan-Li, também conhecido por Man Lec (1573-1620), no qual se proibia, aos Portugueses, “comprar súbdito algum no Império chinês”. Contudo, por meio de peitas aos mandarins ou tráfico com Chineses menos escrupulosos, este decreto parece nem sempre ter sido cumprido.
Já no século XVI, o Reino interviera na repressão do comércio de escravos, no Oriente. E isto porque, desde os mercados dos países árabes ao famoso mercado de Goa, os Portugueses podiam comprar escravas provenientes das mais diversas partes de África e da Ásia, o que incrementou este comércio de tal forma que, desde 1520, foi proibido por D. Manuel “que se levassem para a Europa escravos de qualquer casta”, proibição reiterada em 1571, por D. Sebastião. Em 1595, na sequência de queixas das autoridades chinesas contra os Portugueses que compravam raparigas daquela etnia para suas criadas e as exportavam como escravas, foram estabelecidas sanções.
Durante o século XVII, também, foram feitas várias proibições sobre a escravatura de Chineses, mas sem produzir qualquer efeito prático. Aos residentes de Macau, naquela época, quase todos ainda ricos e poderosos, pouco afectavam as leis do Reino, habituados como estavam a ser praticamente auto-governados, distantes da jurisdição de Goa e, tendo à frente do Senado, um grupo de mercadores que eram os mais ricos da Cidade.
Em 1715, o Pai dos Cristãos (o Bispo de Macau) proibiu, mais uma vez, a compra de escravas e o envio de mui tchai de Macau para Goa ou outro lugar. A par das condenações eclesiásticas e da pressão das autoridades chinesas continuavam a suceder-se as proibições do Reino, embora sem grande efeito prático.
Como o infanticídio feminino era uma prática corrente na China, muitos Chineses, pressionados pela miséria, em vez de matarem as suas filhas, vendiam-nas aos Portugueses. Outros, roubavam-nas ou compravam-nas aos seus conterrâneos para as revenderem em Macau. Este comércio, de crianças roubadas ou revendidas, parece ter sido o meio mais usado para aquisição de mui tsai, porque, muitos Chineses, na sua maioria, temiam represálias dos eus Antepassados falecidos, no caso dos seus descendentes mudarem de religião, adoptando a dos bárbaros, uma vez que as crianças lhes fossem vendidas directamente. Surgiram, assim, muitos Chineses sem escrúpulos a praticarem este tráfego com os Portugueses de Macau, que, com ele, auferiam grandes lucros. As escravas chinesas eram, geralmente, raptadas quando crianças, por traficantes locais, ou vendidas pelos próprios pais, podendo as mesmas ser libertadas por algum ricaço, que as quisesse levar para suas casas como concubinas. (...)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Visita do Gov. de Hong Kong em 1955

Momento da recepção do governador de Macau, Marques Esparteiro, ao seu homólogo de Hong Kong, Sir Alexander Grantham, numa visita em 1955, com as respectivas mulheres.
Hong Kong Governor Sir Alexander Grantham official visit to Macau with reception by Macau governor Marques Esparteiro in 1955.
香港總督 葛量洪 官式訪問 澳門 澳門總督史伯泰在一號碼頭迎接

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Descubra as diferenças...

Em cima o interior de uma mesquita; em baixo o nº 6 da Calçada do Gaio, que actualmente alberga o Instituto de Estudos Europeus de Macau.
 Visto do jardim Vasco da Gama

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Sobre a construção dos templos: 1ª parte

Não sendo um especialista na matéria, do que que fui lendo ao longo dos anos e dos ensinamentos que recebi em várias conversas com amigos chineses, escolhi para este post falar um pouco mais sobre alguns aspectos da construção dos templos chineses em que se destaca a ênfase na articulação e simetria bilateral, que é sinónimo de equilíbrio.

O tema é complexo pelo que me detenho apenas nas esculturas construídas nos telhados e cujos desenhos são de tal forma aprimorados e representam a beleza da arte tradicional chinesa. 

Nos telhados surgem normalmente, três figuras, uma em cada ponta e outra no meio. Os desenhos dessas figuras mais usados habitualmente são os de animais considerados auspiciosos. As duas inclinações do telhado também abrigam um conjunto de estátuas de animais. No limite podem chegar a ser 10 figuras e esse número diminuiu de acordo com o estatuto do dono da construção. Dito isto, na China, a única construção que tem 10 estátuas de animais nos dois lados do telhado é o Salão da Harmonia Suprema da Cidade Proibida, simbolizando o poder absoluto do imperador. 
Os animais escolhidos para enfeitar os telhados têm diferentes significados: o dragão remete para o poder imperial; a fénix, a rainha das aves, segundo a lenda, simboliza as pessoas de alta moralidade; o leão representa a coragem e a força.

domingo, 11 de junho de 2017

Places of interest you will visit

Folheto turístico em língua inglesa impresso entre 1970 e 1972 pela Agência de Turismo Macau (Macau Tours). Inclui mapa com localização dos principais locais de interesse de visita para os turistas.

Places of interest you will visit: templos de A-Ma e Kun Iam, Ermida da Penha, circuito da Guia, Porta do Cerco, gruta de Camões, ruínas de S. Paulo, farol da Guia, etc.


 A empresa tinha sede em Macau (na então chamada Av. Dr. Oliveira Salazar - hoje Av. Dr. Mário Soares), junto ao Tribunal; e ainda escritórios em Tsim Scha Tsui, Kowloon, Hong Kong. entre as várias imagens utilizadas na brochura está uma maqueta da ponte Macau-Taipa que na altura já estava em construção, sendo inaugurada em Outubro de 1974.

sábado, 10 de junho de 2017

Quando a Gruta de Camões atraía turistas

Turistas chineses e ocidentais na Gruta de Camões nas década de 1910/20 e 1930/40

O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas celebra a data de 10 de Junho de 1580, data da morte de de Luís de Camões. Instituído como feriado municipal após a implantação da República em 1910, só a partir do Estado Novo, passou a ter âmbito nacional. Seria 'convertido em Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas em 1978.
Em Macau as habituais romagens à Gruta de Camões neste dia foram 'instituídas' pelo governador Rodrigo José Rodrigues em 1923.
“O largo de Camões, que precede o sítio mais belo e pitoresco de Macau, não passa actualmente dum vasto terreno, onde a erva cresce à vontade e, onde ordinariamente se levantam barracas para festividades chinas, principalmente para enterros, oferecendo assim um espectáculo pouco agradável aos olhos dos numerosos visitantes, quer nacionais quer estrangeiros, que constantemente vêm o local onde se diz que esteve o nosso grande épico. Na ocasião, em que se trata de aformosar, tanto quanto possível, a Gruta de Camões, e de dar um aspecto risonho ao edifício que ali há, parece-me conveniente aformosear também a praça ou largo que precede este local, inquestionavelmente o mais belo de Macau.”
O desabafo, se assim se pode dizer, é do director das Obras Públicas de Macau em Junho de 1887. 

No século 18 grande parte da colina de Patane era ocupada pelos terrenos da casa ocupada pelo administrador da "British East India Company", a que conhece como Casa Garden. Os ingleses saíram em 1835 e a propriedade voltou a ser administrada pela família do Conselheiro Manuel Pereira. O seu genro, comendador Lourenço Marques, mandou colocar um busto do poeta no jardim, fortalecendo a tradição já existente que afirmava ter sido Luís de Camões um dos primeiros moradores de Macau, que, nos penedos deste local, teria escrito parte do poema épico Os Lusíadas

O busto do poeta - feito em bronze - existente no jardim com o mesmo nome - o segundo mais antigo de Macau - foi encomendado a Manuel Bordalo Pinheiro e fundido em Lisboa. Chegaria a Macau em 1886 após a aquisição da propriedade pelo governo de Macau.
Postal Máximo de 1987
A Lenda
O poeta Luís de Camões vivia em Macau numa espécie de desterro, provocado por invejas e inimizades em Portugal.
As intrigas obrigaram-no também a deixar aquela terra, tendo embarcado como prisioneiro na famosa Nau de Prata, nos finais de 1557.
Luís de Camões despediu-se da famosa gruta de Patane, em Macau, que tinha escutado o eco dos seus sonhos e do seu desespero, e apresentou-se ao capitão da Nau de Prata. Interrogado sobre o papel enrolado que levava na mão, Camões respondeu que era toda a sua fortuna e que talvez fosse aquela a sua herança para todos os Portugueses.
Tratava-se da epopeia Os Lusíadas, que contava a história do seu povo e que, segundo a lenda, terá sido escrita naquela gruta. Escritos com toda a alma e toda a saudade de português, injustamente privado da pátria, aqueles versos eram o maior de todos os seus tesouros e os únicos companheiros do seu infortúnio.
Da amurada da nau, estava Camões a despedir-se da gruta, quando ouviu uma voz de mulher que o interrogava sobre a sua tristeza. Era uma nativa de Patane, que o conhecia, e em quem ele nunca tinha reparado, apesar da sua extrema beleza. Tin-Nam-Men era o nome da nativa que, na sua língua, significava Porta da Terra do Sul - a Porta do Paraíso. Tin-Nam-Men tinha observado Camões, durante muito tempo, sem nunca se atrever a falar-lhe até àquele dia. Perdidamente apaixonada por Camões, tinha-o seguido até ao barco.
Partindo com o poeta, conta a lenda que, na Nau de Prata, nasceu mais uma relação amorosa na vida já tão romanesca de Luís de Camões, até ao trágico dia em que uma tempestade irrompeu nos mares do Sul.Como a Nau de Prata estava condenada a afundar-se, embarcaram as mulheres num batel e os homens salvaram-se a nado. Camões, de braço no ar, segurando Os Lusíadas, nadou até terra, mas o barco onde seguia a linda Tin-Nam-Men foi engolido pelas ondas. Foi à bela Dinamene, como o poeta lhe chamou, que Camões terá dedicado os seus belos sonetos "Alma minha gentil, que te partiste..." e também "Ah! Minha Dinamene! Assim deixaste".
 Em cima foto de 1925. Em baixo foto de 2015

sexta-feira, 9 de junho de 2017

1º Centenário da Fundação do Clube Militar (1970)

Por estes dias o Clube Militar de Macau (que começou por se denominar Grémio) comemora 147 anos de existência. Para assinalar a data recordo aqui como foi celebrado o primeiro centenário, em 1970.
Em cima, recorte do artigo publicado na revista do CIT - Centro de Informação e Turismo, em 1970, assinalando o 1º centenário da fundação da instituição. As celebrações iniciaram-se a 13 de Agosto e terminaram com um baile de gala a 31 de Dezembro.
Na verdade, quando foi fundado em 1870 por um grupo de oficiais do exército português, chamava-se Grémio Militar, e só podiam ser sócios os oficiais. Durante a Guerra do Pacífico (1941-1945), as instalações do grémio passaram a ser geridas pelo governo que ali instalou alguns dos refugiados oriundos de Hong Kong. Depois da guerra funcionou como Repartição da Fazenda até à inauguração do Palácio das Repartições no início da década de 1950. Em 1952 a Comissão Administrativa do Clube Militar nomeada em 29 de Outubro de 1951 pelo Governo convidou o Ministro do Ultramar, Manuel Maria Sarmento Rodrigues a (re)inaugurar o espaço, o que veio a acontecer a 30 de Junho de 1952, data a partir da qual a instituição passou a denominar-se Clube Militar e todos os militares podiam ser sócios.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Sir Anders Ljungstedt (1759-1835)

Anders Ljungstedt (1759-1835) was a Swedish merchant and historian. He was born to a poor family in Linköping and attended Uppsala University for a time, but was forced to withdraw for lack of funds. In 1784, he went to Russia, where he worked as a teacher for ten years. Following his return to Sweden, he obtained employment in the Swedish government and served as Russian interpreter for king Gustav IV Adolf during his journey to Russia. Ljungstedt was later hired by the Swedish East India Company, but after it folded, he moved to Macau, where he resided for the rest of his life working as a merchant. The King of Sweden later made him a Knight of the Order of Vasa, and in 1820 he was also appointed Sweden's first consul general in China. Ljungstedt took great interest in the history of Macau and he is famous for being the first Westerner to refute the Portuguese claim that the Ming dynasty had formally ceded sovereignty over Macau. Ljungstedt never returned to his native country and was buried in the Protestant cemetery in Macau. Today, a high school in Linköping bears his name and an avenue in Macau (Avenida Sir Anders Ljungstedt, 倫斯泰特大馬路) was named in his honor in 1997.
Sir Anders Ljungstedt (1759-1835) foi um comerciante de origem sueca que se estabeleceu em Macau (ca. 1820), tendo sido designado pelo seu Governo como cônsul da Suécia na China. Segundo o jornalista e investigador João Guedes "Sendo um dos mais importantes, se não mesmo o mais importante elemento da comunidade comercial sueca por estas paragens, Ljungstedt não se limitava às suas actividades comerciais, pois mantinha relações de carácter político e de representação do seu país junto, não só das autoridades portuguesas, mas também das influentes comunidades inglesa e americana que exerciam actividades no Delta do Rio das Pérolas. Neste âmbito, e ao que parece a pedido dos comerciantes americanos, iniciou um projecto destinado a estabelecer a legitimidade histórica da presença portuguesa em Macau. Para esse efeito, Ljungstedt contou com o precioso auxílio do bispo de Pequim, D. Joaquim de Sousa Saraiva", que passou por Macau em 1805 com destino à diocese de Pequim.
Nos anos em que aguardou em Macau pela autorização da corte imperial chinesa D. Joaquim dedicou-se a recolher e estudar os manuscritos que se encontravam nos arquivos da diocese macaense com o intuito de, tal como Ljungstedt, fazer uma história de Macau. Ainda de acordo com João Guedes "ambos estabeleceram relações de interesse mútuo pelo passado local, o que levou a que o bispo português acabasse por facultar, e provavelmente traduzir para Inglês, muita da documentação que tinha coligido e que facultou a Ljungstedt." que viria a publicar em Boston (EUA) em 1836, com o título “An Historical Sketch of the Portuguese Settlements in China and the Roman Catholic Church and Missions in China & Description of the City of Canton”, aquela que é considerada a primeira obra que sistematiza a história de Macau.
João Guedes conclui que "Ljungstedt viria a ser acusado de tentar, com aquela obra, minar a presença portuguesa em Macau, ao concluir pela inexistência de provas documentais sobre a alegada oferta de Macau a Portugal pela China em troca do auxílio na luta contra os piratas". 
Ljungstedt morreu a 10 de Novembro de 1835 e encontra-se sepultado no cemitério protestante de Macau, perto do Jardim de Camões. 
Em 1997 foi homenageado na toponímia local tendo o seu nome numa avenida de Macau.
Nota: Já em 1832 Ljungstedt tinha publicado, ainda em Macau, o livro "Contribution to an historical sketch of the Portuguese settlements in China, principally of Macao, of the Portuguese envoys and ambassadors to China, of the Roman Catholic Mission in China and of the Papal legates to China", com 174 páginas. Ljungstedt escreveu ainda na publicação The Canton Miscellany, impressa na tipografia da English East India Company entre 1831 e 1832.